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O Estado e o desenvolvimento

O debate ideológico sobre a presença do Estado na economia frequentemente omite duas observações empíricas: (1) a imensa maioria dos casos de desenvolvimento econômico bem-sucedido após a Segunda Guerra Mundial contou com apoio e regulação ativos do Estado; (2) o problema central não é a presença ou ausência de ação estatal, mas a sua qualidade – as intervenções precisam ser competentes, eliminar favorecimentos e fatores de ineficiência, e gerenciar os riscos que a própria intervenção gera

O Estado e o desenvolvimento - Jornal O São Paulo
F. GOYA, O sono da razão produz monstros. Fonte: Wikimedia

Poucos debates econômicos são tão marcados por ideologia e tão pouco testados pela evidência histórica quanto o papel do Estado no desenvolvimento. A narrativa de que mercados livres e Estados enxutos geram prosperidade, e a intervenção estatal, atraso, virou senso comum em certos círculos. Mas os casos concretos de desenvolvimento bem-sucedido desde 1945 contam outra história.

No Leste Asiático, Japão, Coreia do Sul e Taiwan cresceram não por desregulação, mas por intervenção deliberada: crédito dirigido a setores estratégicos, proteção seletiva de indústrias nascentes e metas de exportação para grandes conglomerados. A China pós-1978 mostrou que a liberdade de empreender é fundamental para o desenvolvimento econômico, mas manteve forte presença estatal em setores-chave, com o Estado orientando o desenvolvimento.

Na Europa, o padrão se repete: a economia social de mercado alemã combina regulação estatal robusta com proteção social extensa, e Suécia, Dinamarca e Noruega mantêm gasto público altíssimo sem perder competitividade internacional. França e Itália se desenvolveram no pós-guerra com planejamento estatal e nacionalização de setores estratégicos.

Os experimentos de Estado mínimo tiveram resultados bem mais ambíguos. O Chile dos Chicago Boys, sob Pino-chet, viveu uma crise financeira grave em 1982, causada pela desregulação bancária, e precisou de intervenção estatal para se recuperar. A América Latina sob o Consenso de Washington, nos anos 1980-90, enfrentou crises recorrentes e crescimento medíocre – em contraste com o desempenho asiático no período.

A intervenção estatal, contudo, também tem riscos, e a crise financeira asiática de 1997 é o alerta mais claro: bancos e conglomerados coreanos e do Sudeste Asiático se endividaram pesadamente, confiantes em socorro estatal implícito. Quando o capital estrangeiro de curto prazo saiu subitamente, a fragilidade acumulada por décadas de crédito diri-gido veio à tona – prova de que mesmo intervenções competentes, como a coreana, geram riscos próprios.

A conclusão que emerge não é que o Estado deva ser grande ou pequeno, mas que sua qualidade determina o resultado. Intervenções bem-sucedidas exigem competência técnica, mecanismos contra favorecimento e ineficiência, capacidade de administrar os próprios riscos. O debate sobre “mais” ou “menos” Estado esconde a pergunta mais relevante: que tipo de Estado, com quais instituições, sustenta o desenvolvimento sem sucumbir às distorções que ele mesmo produz?

A Doutrina Social da Igreja, da Rerum Novarum (1891) a Magnifica humanitas (2026), sempre manteve cautela tanto diante da atividade econômica desregulada e do Estado ausente quanto do intervencionismo que sufoca a livre iniciativa. A sabedoria da Igreja reconhece o que a ideologia quer ocultar — nosso desafio é aderir a ela com inteligência e liberdade.

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