O racismo numa sociedade na qual as pessoas dizem não querer ser racistas

O racismo deveria ser uma página virada na história do Brasil. Deveríamos estar refletindo sobre quais políticas públicas aplicar para a superação das desigualdades em função de raça e cor e não sobre o racismo em si. Contudo, ainda convivemos com assassinatos e atos truculentos contra pessoas pretas, atitudes preconceituosas e obstáculos socioeconômicos que só podem ser explicados em função do racismo. Nos recentes casos de escravidão no Rio Grande do Sul e de ataques racistas ao jogador Vinicius Júnior, políticos manifestaram opiniões tipicamente preconceituosas – mostrando que o racismo ainda é um problema cultural com perigosas consequências políticas.

Fotos: Luciney Martins/O SÃO PAULO

Em 1995, uma pesquisa sobre preconceito racial do Datafolha indicava que 89% da população acreditava haver racismo no Brasil, mas só 10% se considerava racista. Em 2020, o PoderData encontrou 81% da população acreditando haver racismo no País e 34% se reconhecendo racista. Apesar da autoconsciência quanto ao preconceito racial ter crescido nestes 25 anos, as pessoas ainda se veem numa sociedade racista. Contudo, consideram que a culpa pelo preconceito e pelas desigualdades sociais não é delas. Podemos supor um tremendo autoengano, em que a maioria não reconhece os próprios erros ou, o mais provável, aceitar a hipótese de que o racismo no Brasil não depende tanto da intenção dos indivíduos, mas é um problema estrutural – com todos os questionamentos que esse termo possa ter na literatura especializada, pois depende do que se entender por estrutura social.

Ser um problema estrutural não significa estar apenas fora de nós, presente na herança histórica e nos arranjos institucionais. A estrutura social é simultaneamente objetiva, presente nas relações sociais, e subjetiva, enraizando-se em nossas concepções mais intimas, sustentando-se a partir de nossos compromissos e de nossas omissões. Toda estrutura social injusta é um desafio moral lançado à nossa consciência, nossa liberdade e ao nosso empenho no mundo.

Na pesquisa de 1995, do Datafolha, 26% dos entrevistados creditaram as desigualdades à inação dos pretos diante das oportunidades e 58% ao preconceito e à discriminação dos brancos. Contudo, entre aqueles que tinham educação universitária, só 17% (brancos) a 19% (pretos) concordaram com a ideia de que os pretos não aproveitavam as oportunidades, enquanto que entre os que tinham só o Ensino Fundamental, 30% (brancos) a 34% (pretos) culparam a incapacidade de aproveitar as oportunidades pelas desigualdades sociais. A dominação, para ser eficiente, deve impregnar a alma das pessoas, ser naturalizada a ponto que uns não se apercebam das injustiças que sofrem e outros não se culpem pelas injustiças que os beneficiam. A educação, como mostrou a pesquisa, nos mostra a injustiça, ajudando-nos a construir uma sociedade melhor.

A Igreja Católica, já em 1537, se posicionou em defesa da dignidade dos índios, com a bula Sublimis Deus. Infelizmente, foi bem mais lenta na defesa das populações de origem africana – apesar de padres, como Antônio Vieira (1608-1697), terem se colocado frontalmente contra o escravismo. No documento A Igreja diante do racismo (1988), o Pontifício Conselho Justiça e Paz – cujas atribuições atualmente estão sob a responsabilidade do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral – reconheceu que “onde os missionários permaneceram mais dependentes dos poderes políticos, foi mais difícil para eles conter a vontade de domínio dos colonizadores”. E o documento conclui: “A condenação do racismo e dos atos racistas é necessária […] A Igreja compromete-se sobretudo a mudar a mentalidade racista, também nas suas próprias comunidades […] Apesar dos limites dos seus membros pecadores, ela, hoje como ontem, tem consciência de ter sido testemunha da caridade de Cristo na terra, sinal e instrumento da unidade do gênero humano”.

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Rosana Aparecida
Rosana Aparecida
11 meses atrás

Um texto muito bem escrito com dados para nossa reflexão do Racismo na igreja,aEy enquanto Mulher Negra e Católica fico feliz com essa reflexão

Sonia Maria Barbosa de Oliveira
Sonia Maria Barbosa de Oliveira
11 meses atrás

O ser humano considera se tão modernizado em tecnologia, em ir para a lua, mas o maior e único avanço criado desde que o Mundo existe esquecem. O amor ao próximo, o respeito ao próximo independente de cor status social, é o maior valor que um ser chamado de humano pode ter pois Deus é infinito em amor para todos. O meu Deus não tem cor o meu Deus tem amor, sou negra e todos os dias agradeço por sentir as bênçãos de Deus.