O crime prolifera onde a ordem pública não é mantida. Mas a “ordem pública” exige justiça social, oportunidade para os jovens, ambiente adequado para o desenvolvimento das famílias. Onde faltam estes elementos, o Estado deve agir não apenas com a ação policial, mas buscando o desenvolvimento humano integral para todos.

O Jardim Ângela, em São Paulo, foi apontado pela ONU no ano 2000 como o lugar mais violento do mundo, com 116 assassinatos por 100 mil habitantes. O que transformou esse território não foi uma grande operação policial, mas a mobilização da própria comunidade – educação, projetos para jovens, cultura, espaços de convivência – combinada com policiamento de proximidade inspirado no modelo japonês Koban, em que o policial conhece e é conhecido pelos moradores. A queda dos homicídios tornou-se referência nacional.
Medellín, na Colômbia, é o exemplo mais impressionante do mundo. Nos anos 1980, a cidade registrava 381 homicídios por 100 mil habitantes – índice de zona de guerra. Décadas depois, a taxa caiu mais de 90%. Construiu teleféricos ligando favelas ao centro urbano, bibliotecas-parque e equipamentos comunitários em territórios antes dominados pela violência – simultaneamente ao fortalecimento da inteligência policial. Dificilmente teria saído desse patamar, ou mantido a queda, sem essa combinação de urbanismo social e policiamento eficaz.
No Rio de Janeiro, as UPPs ensinaram a mesma lição pelo avesso. Nos primeiros anos, a presença policial em favelas antes dominadas pelo tráfico produziu queda real de homicídios e aprovação da população. Mas o programa expandiu rápido demais, e seu componente social chegou a poucas comunidades e foi o primeiro a sofrer cortes. Sem investimento contínuo em serviços públicos, educação e infraestrutura, a presença policial isolada não sustentou os ganhos: as favelas foram retomadas pelas facções.
O Atlas da Violência 2025 (Ipea/Forum Brasileiro de Segurança Pública) aponta que todas as seis unidades da federação que conseguiram reduções sistemáticas de homicídios desde 2013 – São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraíba, Distrito Federal e Goiás – fizeram isso com planos estratégicos que combinavam boa gestão por resultados, policiamento orientado por inteligência e programas multissetoriais de prevenção social. O Espírito Santo, com o Estado Presente (2011), é paradigmático: presença do Estado como serviço, não como ocupação armada.
Entre 2017 e 2023, o número de homicídios no Brasil caiu de 65.602 para 45.747 – redução de 30% em seis anos. O fio condutor da queda sustentada foi sempre o mesmo: não apenas mais policiais na rua, mas programas sociais em paralelo, continuidade de gestão e participação da comunidade. Onde os programas sociais foram cortados ou descontinuados, os índices voltaram a subir.
Quem acredita que o problema da violência é exclusivamente social precisa reconhecer uma realidade difícil: sem ordem pública mínima, os programas sociais não chegam. Escola em território dominado por facção não funciona; posto de saúde em área de tiroteio não atende; projeto para jovens em bairro em que ninguém sai à noite não se sustenta. A segurança é a condição que viabiliza o desenvolvimento social, assim como o desenvolvimento social é a condição que torna a segurança duradoura.
Não há, portanto, escolha entre os dois caminhos. Há apenas um caminho – e ele exige os dois, integrados, contínuos e orientados para a dignidade de cada pessoa que vive nos territórios mais vulneráveis do nosso país.


