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Rigor, mas com inteligência

Muitas vezes pensamos que o rigor policial é a solução para a insegurança. A proteção da população não pode ser descuidada, mas não basta uma ação policial rigorosa. O debate público sobre segurança que opõe repressão a desenvolvimento social encobre a distinção entre policiamento coercitivo – com uso indiscriminado da força – e o Policiamento Orientado pela Inteligência (POI), que permite saber, antes de agir, onde o crime está, quem é o criminoso, como enfrentá-lo melhor – uma abordagem mais eficiente e que protege melhor os cidadãos.

Rigor, mas com inteligência - Jornal O São Paulo
Imagem gerada por Inteligência Artificial

A cidade de São Paulo saiu de 66,7 homicídios por 100 mil habitantes em 1999 para cerca de 4 em 2024 – queda superior a 90% em 25 anos, atravessando governos de diferentes partidos. Vários fatores convergiram para isso: a menor vulnerabilidade social, graças à queda do desemprego e a programas sociais; a redução da proporção de jovens na população, os quais são mais expostos à violência; o policiamento comunitário, que aproxima a polícia das comunidades; e as ferramentas de inteligência policial como o Infocrim, o Detecta e a Muralha Paulista. A letalidade policial não apresentou correlação consistente com essa queda – oscilou de forma irregular, respondendo ora a ações do crime organizado, ora a decisões institucionais mais ou menos tolerantes com o uso da força. O que reduziu a taxa de homicídios foi o conjunto de fatores acima, não uma polícia mais violenta.

O Rio de Janeiro reforça o argumento. Após a ADPF 635, que limitou operações em favelas, as mortes por intervenção policial caíram 61% – e os homicídios dolosos também recuaram, sugerindo que conter o uso indiscriminado da força não enfraquece a segurança. No México de Felipe Calderón (2006–2012), a guerra aberta aos cartéis fez os homicídios mais que dobrarem. Na Cracolândia, o limite do modelo coercitivo é igualmente claro. Três décadas de operações – Tolerância Zero, Sufoco, Dor e Sofrimento, Caronte – produziram sempre o mesmo resultado: dispersão temporária, seguida de reagrupamento. A Cracolândia não acabou: fragmentou-se.

A busca de modelos externos reforça essa conclusão. Nova York nos anos 1990 é frequentemente invocada como prova da tolerância zero – mas o que funcionou foi o Compstat: policiamento orientado por dados, inteligência antes de força. Cingapura, modelo de segurança admirado mundialmente, combina polícia sem corrupção, proibição de armas e políticas habitacionais que evitam a concentração de pobreza – um pacote institucional que não se reduz à repressão. El Salvador, sob Bukele, é o único caso recente em que a repressão massiva foi o mecanismo central. Mas seu regime de exceção, além de colocar em risco os direitos humanos e a oposição legítima ao governo, elevou a taxa de encarceramento salvadorenha a 1.659 presos por 100 mil habitantes, a maior do mundo e quase quatro vezes a taxa brasileira (416) – chegando a 1,7% de toda a população do país. Replicar essa proporção no Brasil, que já tem a terceira maior população carcerária do mundo e um déficit crônico de vagas, exigiria quadruplicar o número de presos – algo inviável logística e financeiramente. O modelo também dependeu de gangues já fragilizadas; enquanto no Brasil PCC e Comando Vermelho são muito fortes. O padrão que emerge da comparação internacional é claro: onde a segurança melhorou de forma sustentada, o mecanismo foi além do uso da força.

Mas se o POI funciona quando aplicado em São Paulo, por que os furtos cresceram 10% na capital em 2025, disseminando a sensação de insegurança? Porque furtos são crimes oportunistas e dispersos, alimentados por vulnerabilidade econômica. Enfrentá-los exige georreferenciamento para mapear padrões e orientar o patrulhamento, mas também políticas de inclusão para populações mais vulneráveis ao recrutamento pelo crime.

O rigor necessário não é o da força indiscriminada. É o do POI: saber onde agir, usar a força com proporção e não confundir eficiência com brutalidade. Esse caminho funciona quando aplicado com continuidade e seriedade. O desafio é fortalecê-lo, corrigindo seus desvios e ampliando seus êxitos.

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