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Tecelões de esperança na era da IA

Na conclusão de Magnifica humanitas, Leão XIV traça um programa de vida cristã para a era da IA em quatro pontos: as virtudes teologais (fé, esperança, caridade) e a oração.

Tecelões de esperança na era da IA - Jornal O São Paulo
Imagem criada por IA (Microsoft Copilot)

Queridos irmãos e irmãs, interroguemo-nos sobre o mundo que estamos construindo, perguntando-nos o que significa salvaguardar a pessoa humana na era da inteligência artificial (IA). No final deste percurso, desejo entregar-vos um itinerário de vida cristã sóbrio e exigente, com o qual podemos viver esta mudança de época à luz do Evangelho. É um caminho que nasce da contemplação do desígnio de Deus, vive a unidade eclesial alimentando-se da Palavra e da Eucaristia, edifica o mundo no bem e reza com a Virgem Maria (MH 229).

A fé contempla o desígnio de amor do Pai na era da IA. Em um mundo marcado por tantas estratégias que visam a conquistar mercados e espaços de influência, muitas vezes revestidas de retóricas apaziguadoras e construções ideológicas sedutoras, o nosso coração sente a necessidade de descobrir um desígnio diferente, sábio e benevolente, semelhante ao que Maria contempla no Magnificat […] Este desígnio de misericórdia permeia a história também hoje, no meio de mudanças rápidas e inquietantes marcadas por algoritmos e redes globais, e torna-se a bússola para uma existência evangélica na era digital (MH 230).

Nas promessas do transumanismo e de algumas correntes pós-humanistas, que aspiram a uma humanidade aperfeiçoada e quase desencarnada, reconhecemos um desejo que nos diz respeito: a necessidade de uma vida mais plena, menos exposta à fragilidade e ao sofrimento. A Encarnação abre, porém, um caminho diferente. Enquanto ideologias antigas e novas impelem o homem a superar tecnicamente os limites e a elevar-se acima dos outros para afirmar um domínio, o mistério do Filho de Deus que entra na nossa condição narra um movimento oposto: o Deus vivo desce à nossa história para nos libertar de toda a forma de escravidão, toma sobre si a nossa fraqueza e transforma-a em um lugar de salvação. Não há circunstância ou condição humana que não seja digna de Deus […] O que salva o homem é o amor divino que desce ao ponto mais vulnerável da sua história e a regenera profundamente (MH 232).

Por isso, como fiel entre os fiéis, convido a contemplar no rosto do Filho uma magnífica humanidade que ilumina também a era da IA. Em Cristo, compreendemos que o homem é chamado a ser colaborador com a obra da criação, em vez de espectador resignado de processos tecnológicos que restringem a sua liberdade e responsabilidade. A dignidade que o Espírito Santo grava em cada um de nós reconhece-se também na capacidade de refletir de modo crítico, de escolher e de amar gratuitamente, de estabelecer relações autênticas. Nenhum sistema de cálculo, por mais sofisticado que seja, gera um coração que se entrega ou uma consciência que discerne o bem. Mesmo quando as máquinas se destacam pela eficiência, o centro da história continua a ser um rosto humano que pede para ser olhado. Este rosto humano é a plenitude para a qual caminha a história (MH 233).

A caridade nos une em um único corpo eclesial. A espiritualidade de que necessitamos é uma espiritualidade eucarística, ou seja, uma espiritualidade da unidade eclesial no amor. A Encarnação e a Páscoa revelam Deus que entra na nossa condição humana e a transfigura no dom de si mesmo. Este dom continua presente e operante na Eucaristia, na qual o Senhor se comunica e reúne a Igreja, para que a sua oferta se torne princípio de unidade e fonte de vida nova. Dessa comunhão nasce também a solidariedade cristã, pois “a união com Cristo é, ao mesmo tempo, união com todos os outros aos quais Ele Se entrega” (Deus caritas est, DCE 14) (MH 234).

O Corpo que comungamos e o Sangue que bebemos dão forma a toda a nossa vida. […] Em Cristo, apesar de muitos e diferentes, somos uma só coisa: In Illo uno unum. A Eucaristia abre-nos à justiça e à partilha, com uma atenção preferencial para com quem carrega o fardo da pobreza e da marginalização. Enquanto as novas redes econômicas e tecnológicas podem gerar exclusão, isolamento e dependências, a Igreja alimentada pela Eucaristia é chamada a mostrar outro critério, preservando os vínculos, devolvendo voz aos silenciados e orientando os processos para a dignidade das pessoas (MH 235).

A esperança sustenta a nossa ação no mundo. A espiritualidade que desejo transmitir é a do “sábio arquiteto” que, animado pela esperança do Reino de Deus, se dedica a construir o mundo no bem (cf. 1 Cor 3, 10) […] Hoje, a nossa construção deve ter como fundamento a relação com Deus; como regra, a aceitação do limite humano como algo natural e positivo; como esti-lo, a corresponsabilidade e a linguagem evangélica. No final do percurso, o proje-to de uma civilização do amor delineia-se mais claramente e a construção parece estar já em andamento, sobretudo graças às muitas pedras vivas firmemente unidas a Cristo, a pedra angular (cf. 1 Pe 2,4-6). Nesta obra, somos chamados a assumir um papel ativo, sem nos refugiarmos no espiritualismo ou nos nossos pequenos mundos: devemos ser fiéis à verdade, investir na educação, cuidar das relações, amar a justiça e a paz […] É importante conservar um coração que ama a verdade, que deseja o que é justo mais do que conteúdos apelativos, que busca a sabedoria mais do que o impacto imediato. A verdade que não devemos perder é aquela sobre Deus e sobre o ser humano, tal como Cristo nos revelou […] A fidelidade à verdade exige integrar as possibilidades oferecidas pela técnica em um caminho de sabedoria, capaz de salvaguardar simultaneamente a dignidade de cada pessoa e o futuro da nossa casa comum (MH 236-237).

[… Temos] a vocação de ser, na era da transformação digital, não resignados espectadores das fraturas sociais e culturais, nem meros analistas de ruínas, mas mulheres e homens que entram nos estaleiros da história – laboratórios de investigação, empresas tecnológicas, escolas, meios de comunicação, instituições, comunidades locais – para reconstruir o que ruiu e proteger o que está exposto (MH 241).

A oração do Magnificat. O cântico de Maria acompanha o nosso empenho […] A sua alma glorifica o Senhor e o seu espírito exulta em Deus, seu Salvador, porque Ele escolheu para o seu desígnio de salvação uma jovem, pobre e humilde. Maria vê toda a história com os olhos desta descoberta. Nada mudou à sua volta: a situação sociopolítica da sua época permanece a mesma, com os romanos a dominarem a sua terra e o seu povo dividido e humilhado. No entanto, tudo mudou dentro dela, e isso permite-lhe ver o invisível. Deus já manifestou o poder do seu braço, já dispersou os soberbos, derrubou os poderosos, exaltou os humildes, encheu de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias. Ele já socorreu Israel, seu servo […] Com a mesma fé de Maria, tornemo-nos tecelões de esperança no nosso mundo, partilhando o que somos e o que temos, de modo que a presença de Jesus cresça entre nós e o seu Reino tome forma. Na humilde fidelidade de cada dia, também a era da IA pode tornar-se uma etapa em que o Espírito faz amadurecer a civilização do amor na nossa vida (MH 243-245).

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