A beleza de ser família

Como escrevemos no editorial de 13 de janeiro último, o Papa Francisco estabeleceu para o ano corrente “duas intenções especiais: 2021 será o ‘Ano de São José’ (com a carta apostólica Patris corde) e o ‘Ano da Família’ (com o quinquênio desde a publicação da exortação apostólica Amoris laetitia, AL)”. Inaugurado, então, oficialmente o Ano da Família no dia 19 último (simbolicamente, a Solenidade de São José), aproveitemos a ocasião para, conforme o desejo do Papa, “aprofundar os conteúdos do documento” – ainda que nos estreitos limites que nos tocam.

Uma das grandes preocupações do texto, “para manter os pés presentes na terra”, é permanecer atento à “situação atual das famílias” (AL, 6) – que transitam numa sociedade cada vez menos capaz de compreender a “liberdade genuína (…), como se, para além dos indivíduos, não houvesse verdades, valores, princípios que nos guiam, como se tudo fosse igual e tudo se devesse permitir” (AL, 34). Esta “liberdade de escolher”, quando assim mal compreendida, “degenera em uma incapacidade de se dar generosamente” – e a família passa, então, a ser compreendida como um “lugar de passagem, aonde uma pessoa vai quando lhe parecer conveniente para si mesma ou para reclamar direitos, enquanto os vínculos são deixados à precariedade volúvel dos desejos e das circunstâncias” (AL, 33-34). Daí decorre uma “concepção puramente emotiva e romântica do amor”, a “difusão da pornografia e da comercialização do corpo” (AL, 41), e, enfim, a leviandade no trato das “crises conjugais” (AL, 40-41).

Esta “cultura individualista exagerada da posse e fruição” (AL, 33), no entanto, é sem dúvida amplamente difundida, mas permanece incapaz de satisfazer os anseios mais profundos de realização pessoal, que cada um carrega no profundo de seu coração – e é precisamente por este caminho que se deve pautar o anúncio evangélico da Igreja. Vale dizer: o Evangelho da família, tal como instituído por Cristo, deve continuar sendo anunciado (pois “não podemos renunciar a propor o matrimônio para não contradizer a sensibilidade atual”; AL, 35) –, no entanto, o foco deve ser em uma “pastoral positiva, acolhedora”, que não se limite a meros “ataques ao mundo decadente”, mas que seja capaz “de propor e indicar caminhos de [verdadeira] felicidade” (AL, 38). Se foi aos homens do século XXI que Cristo nos constituiu testemunhas, precisamos “apresentar o matrimônio mais como um caminho dinâmico de crescimento e realização do que como um fardo a carregar a vida inteira” (AL, 37).

Uma das formas de enxergar a beleza da família é contemplar seu lugar na história da salvação: foi, afinal, por meio da “capacidade que o casal humano tem de gerar” que Deus ordenou no tempo as almas que tanto deseja unir a Si, utilizando ainda “a fecundidade do casal humano” como “símbolo das realidades íntimas de Deus”, e “do ato criador” (AL, 10-11). Quando se encarnou, o mesmo Deus quis nascer no seio de uma família humana, com Mãe (natural) e pai (adotivo) –, mas também procurou deixar clara a necessidade de sobrenaturalizar os laços biológicos, fundando-os na escuta e na prática da Palavra de Deus (AL, 18; cf. Lc 8,21).

Seria, por fim, muito oportuno meditar sobre a beleza da família a partir do famoso Hino ao amor, de São Paulo (cf. 1Cor 13,4-7). É o que o Papa faz no capítulo IV da Amoris laetitia (AL, 89- 164) – e, se nossas limitações de espaço não permitem que nos detenhamos demoradamente nas reflexões do Santo Padre, relembremos ao menos as palavras de São Paulo: “O amor é paciente, o amor é prestativo; não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso; nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse; não se irrita, nem guarda ressentimento; não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13,4-7).

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