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A cruz do Senhor e a nossa

A Igreja se aproxima cada vez mais da Semana Santa, semana maior de todo o ano litúrgico, em que se celebra a Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. A cada dia, a cada missa e a cada oração, acentua-se a dor dos fiéis neste tempo litúrgico, até chegar ao seu ápice, quando finalmente Cristo entrega livremente seu espírito na cruz por nós. Ali, se por um lado há uma tristeza em vista da injustiça cometida – injustiça essa que continuamente cometemos ao pecar até hoje –, após poucos dias somos preenchidos por uma alegria incomensurável: “Ressuscitou, como havia dito” (Mt 28,6). Nesse momento, travou-se um duelo singularíssimo entre a morte e a vida em que Jesus triunfa ao deixar-se morrer. 

Essa batalha, contudo, não teve seu início apenas no momento da Paixão. Nos dias anteriores à prisão de Jesus, por exemplo, relembra-se nas liturgias diárias como os fariseus buscavam insistentemente encontrar motivos que o levassem à Sua condenação. Antes disso, ao longo de toda a Sua vida pública, os Evangelhos relatam as inúmeras dificuldades enfrentadas para anunciar a vinda do reino dos céus: perseguições, privações, incompreensões e fadigas. Quando ainda recém-nascido, incapaz sequer de falar, já sofria atentados contra a vida pelo próprio rei Herodes. Assim, não é errado afirmar que Cristo começou a carregar sua cruz desde o primeiro momento de sua Encarnação. Em parte, esse é um dos efeitos de Ele ter “assumido a condição de escravo, tornando-se solidário com os seres humanos” (Fl 2,7). 

Entretanto, não se pode limitar as “cruzes” do Senhor somente aos seus sofrimentos exteriores. Pelo contrário, ao fazer-se homem, todas as ações por Ele realizadas participam da obra da Redenção, cuja plenitude se dá na Cruz. Assim, o trabalho feito em sua vida oculta, as noites mal dormidas, os serviços realizados em prol do outro, enfim, tudo o que foi vivido por Jesus o foi pela nossa salvação. A consequência para nós é clara: todas as nossas pequenas ações, quando feitas por amor a Deus, adquirem valor sobrenatural e revertem em méritos para a nossa santificação. Assim, podemos oferecer até as atividades mais comuns, unindo-as à Redenção. Em outras palavras, podemos associar as nossas cruzes pessoais à Cruz de Cristo. 

Para isso, no entanto, não basta sofrer “por sofrer”. As ações, em si mesmas, não necessariamente possuem méritos, mas dependem primordialmente do amor e intenção com que as fazemos: “Eu, o SENHOR, examino o coração, sondo os rins para recompensar a cada um pela sua conduta, conforme o fruto de suas obras” (Jr 17,10). Assim, quanto mais, à semelhança de Cristo, suportarmos nossos sofrimentos, mais frutos geraremos. Analogamente, se desprezarmos ou até amaldiçoarmos as dificuldades que Deus permite em nossas vidas, tornamo-nos cada vez mais fechados à graça e semelhantes ao faraó, cujo coração só endurecia. 

Portanto, que nesta Páscoa assumamos o firme propósito de oferecer nossas cruzes como sacrifício de agradável odor ao Senhor. Em nossos momentos de trabalho, estudo e deveres, sejam eles penosos ou não, saibamos reconhecer a presença de Deus e uni-los ao oferecimento de Cristo. Dessa forma, cooperaremos, pela graça, para a salvação das almas e também nós estaremos preparados para o alegre dia em que, no fim dos tempos, seremos chamados à nossa ressurreição para contemplar, de corpo e alma, Aquele que é a nossa razão de ser.

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