A festa da Nossa Senhora do Carmo

O calendário dos santos e santas da Igreja reserva o dia 16 de julho para uma bela festa mariana, a de Nossa Senhora do Carmo. Essa invocação mariana lança raízes no monte ligado ao ciclo do profeta veterotestamentário Elias (século IX a.C.), arrebatado aos céus, segundo o testemunho de Eliseu, num carro de fogo pela sua santidade e fidelidade (cf. 2Rs 2,11-12), comprovadas, sobretudo, em sua memorável luta contra os profetas de Baal sobre o monte Carmelo, quando os exterminou (cf. 1Rs 18,20-40).

O zelo de Elias foi coroado num monte cujo nome significa a “vinha do Senhor”, simbolizando o cuidado de Deus pelo seu povo. Desde então, o monte Carmelo ficou envolto em uma áurea de fidelidade à Palavra de Deus e à sua proposta de vida santa àqueles que chama para uma aliança de amor.

Elias se tornou personagem sempre presente para os judeus, ao mesmo tempo como principal precursor do Messias (cf. Ml 3,23-24). Também é grande o apreço dos Padres da Igreja por Elias: São João Crisóstomo nele vê exemplo de pobreza e virtudes; Santo Ambrósio entende ser ele o mais excelso dentre os profetas (De viduis 1, 3, em PL, XVI, col. 235). 

Aliás, há quem afirme que desde Elias o monte Carmelo foi habitado ininterruptamente por desejosos de vida virtuosa e santa, pois o lugar pareceu bem adequado à contemplação de realidades celestes. E, no século XII, soldados fatigados pelas batalhas das cruzadas acorriam para o aconchego desse lugar; e no XIII já havia um grupo de monges vivendo estavelmente nesse local, o qual aprofundou e sistematizou o culto à Santíssima Virgem Maria em diálogo com a espiritualidade ligada ao profeta Elias, dando origem à rica espiritualidade conhecida como carmelita.

No entanto, em 1235 com o retorno dos mouros à Terra Santa, os monges carmelitas foram atacados e o grupo responsável pela defesa foi facilmente liquidado, ao passo que outros sobreviveram em diáspora no sul da Itália, na Grécia. O mais representativo é o grupo que se instalou na Inglaterra, em Aylesford, onde não teve boa acolhida pelas autoridades eclesiásticas e esteve à beira de uma trágica destituição.

Diante de tantas perseguições e perigos de morte, o superior desses carmelitas vagantes, Simão Stock, em oração, suplicou um sinal de proteção a Nossa Senhora, e bem visível aos inimigos. A resposta materna foi dada na forma de um escapulário, e com esta promessa: “Quem com ele morrer não se perderá. Eis aqui um sinal da minha aliança, salvação nos perigos, aliança de paz e de amor eterno”. Assim, Nossa Senhora do Carmo se apresenta como protetora em vida e assistente na hora da morte.

Desde então, a espiritualidade e culto a Nossa Senhora do Carmelo tem como referência a promessa ligada ao escapulário, um sacramental que se tornou muito popular entre os cristãos e ainda conta com muitos adeptos. O Papa Pio XII lhe concedeu o seguinte entendimento: “Vejam, principalmente, nesta peça que vestem dia e noite, significada, com simbolismo eloquente, a oração com a qual invocam o auxílio divino”. 

O Papa Francisco recentemente, associou esse título mariano à estada de Maria aos pés da cruz de Jesus Cristo, e que por isso, afirmou, ela participa dos sofrimentos de cada filho e filha e os escuta em seu cuidado de mãe. É oportuna a referência ao que expressou São Bernardo de Claraval acerca de Maria: “Quem recorreu à vossa proteção não foi por vós desamparado, Ó Clemente, Ó Poderosa, Ó sempre Virgem Maria”. 

No entanto, se a espiritualidade carmelita parte de uma garantia de auxílio nas dificuldades, na medida que aproxima o fiel de Maria Santíssima, o convida a uma vida pautada na Palavra de Deus, na docilidade à vontade de Deus, na oração e modéstia em relação aos bens e no empenho pelas causas de Deus. Eis alguns elementos espirituais emanados da vida do profeta Elias e sobretudo da Virgem do Carmo.

Nesse sentido, essa espiritualidade é uma via geradora de grandes santos e santas para a Igreja e exemplo para os seguidores de Jesus. Basta citar santos do porte de São Simão Stock, Santa Teresa de Jesus, São João da Cruz, Santa Teresinha do Menino Jesus, Santa Edith Stein etc., os quais alegram imensamente a Ordem Carmelita e a ornam com vidas preciosas aos olhos do Senhor. 

Esse caminho antigo se apresenta tão atual em contexto de dificuldades várias em tempos de pandemia e desafios para a vida de fidelidade a Deus. 

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