A mesada e a esmola

O tema da mesada é muito antigo. Recordo-me de que, quando eu era criança, todos gostavam de ter uns “trocadinhos” que fossem seus. Era um dinheirinho da vovó, ou por ter ajudado a lavar o carro com o pai, a tia que gostava de ver o afilhado receber… Eram trocados esporádicos, que evidentemente não constituíam um ganho periódico, e muito menos suficiente para pouco mais que um pacote de balas. Entretanto, a idade avança e começa a haver gosto de ter essa renda periodicamente. Quem sabe semanal no início, depois quinzenal e, chegando a ser mensal, com valores mais significativos de acordo com a responsabilidade da idade. 

Quando se chega à mesada, os pais precisam ter ideia de como e em que este dinheiro está sendo usado. O valor pode ser pequeno, porém, se juntar dois ou três meses, será mais significativo. É preciso ter em conta que dinheiro dado é do filho, mas estamos falando de crianças/adolescentes e não de funcionários. Se os pais compram tudo de que os filhos precisam, a mesada ficará destinada a coisas que não são essenciais, e sim desejos. Contudo, se da mesada o filho deverá passar a administrar alguma parcela das suas necessidades, isso se torna mais interessante e educativo. Quando na mesada se inclui o gasto com o lanche, por exemplo, isso quer dizer que, se gastar o dinheiro todo, ficará sem ter o que comer. Que crueldade! Os filhos não ficarão desnutridos ou morrerão de fome, mas estarão aprendendo a valorizar e a lidar com escolhas e o custo das coisas. 

É fato conhecido o desejo de um filho que queria muito um instrumento musical, mas a família não dispunha de condições para poder investir nisso. Ao longo de meses, o rapaz soube economizar e, com enorme satisfação, conseguiu comprar o tão desejado instrumento.  Evidentemente, precisou se privar de alguns outros desejos, e deixar de participar de certas atividades, mas aprendeu a colocar hierarquia no valor do que realmente vale a pena para ele. 

Atualmente, os cartões de crédito tornaram a mesada um gasto invisível. Quando eu ganhava cédulas de pequeno valor, percebia que a cada compra elas iam “desaparecendo” da carteira. Agora, o cartão só avisa quando bate no limite. E, se os pais não colocam limites, aí… sabe Deus. Certa vez,  um rapaz respondendo se sabia quanto gastava, disse: “Eu não! Meu pai é quem paga!”. Perigo! Gravíssima falha educacional! E agora os cartões estão se aposentando e tudo ficará por conta do toque no celular! Alerta vermelho! Percebe-se que a mesada, como quase tudo, pode ser um instrumento de educação quanto a se conhecer e saber valorizar os gastos e a hierarquia de escolhas; sem deixar de se tornar uma arma quando usada inadequadamente para compras de excessos, luxúria, ganância, gula, álcool, drogas etc.

Mudando a página, mas no mesmo tema, cabe a pergunta em tempo de Quaresma: estamos nos ocupando de ensinar os nossos filhos a saber dar esmolas?  Se na mesada recebo, na esmola devo dar. O quanto vamos ensinando aos nossos filhos o valor de dar do que temos àqueles que precisam mais e não têm como comprar?

Quando se fala de esmola, frequentemente nos vêm a ideia duas moedinhas. O exemplo da viúva que depositou duas moedinhas no cofre do templo é bem conhecido. Aquilo, porém, era tudo o que ela possuía para o seu sustento (cf. Lc 21,1-4). Evidentemente, não poderemos pedir a uma criança que lance mão dos seus trocados de mesadas para dar tudo a um mendigo. Podemos, porém, verificar com ela, no seu armário, as roupas que não usa mais porque cresceu, e estão em bom estado. O tênis que ficou pequeno. Os brinquedos que já passaram da idade… E aí sugerir: “Por que não doamos a uma criança que não pode comprar?”.

O exemplo citado é clássico e conhecido, mas corre-se o risco, em uma sociedade consumista e “colecionadora”, de se esquecer dos velhos contos que muito ensinavam. Portanto, é válido lembrar. As atitudes de doação na infância são sementes para que possa futuramente doar da sua mesada, e depois do próprio salário, porque aprendeu a se desprender. Recentemente, um jovem, de família economicamente confortável, chamado Carlo Acutis, foi beatificado pela maneira cristã e alegre como viveu, até morrer precocemente de câncer. Conta-se que, para surpresa de todos, ao seu velório chegaram muitos mendigos desconhecidos dos presentes, mas que vieram agradecer aquele jovem e velar por ele que, sem que soubessem, ajudava a muitos com o que tinha, vivendo na simplicidade para si. Olhemos o exemplo desse jovem e procuremos levar aos filhos a educação da mesada, sem esquecer que daí poderemos favorecer a virtude do desprendimento, na caridade aos mais necessitados, pela esmola. 

Valdir Reginato é médico de família. E-mail: reginatovaldir@gmail.com

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