A Palavra

Sergio Ricciuto Conte

Em um encontro de jovens, no fim dos anos 1960, conversava com um dos participantes e lhe disse que estava pensando em ler toda a Bíblia, de forma sistemática. Ele me ouviu com atenção e concordou ser uma boa experiência, mas me falou também que, vivendo a Palavra e colocando em prática cada frase dos Evangelhos, a gente marcaria de forma indelével, nas nossas mentes, nos nossos corações e nas nossas vidas, toda a mensagem cristã, que jamais seria esquecida.

Depois de outros encontros, percebi que esta era uma das características daquele grupo e que fazia parte da própria espiritualidade que difundiam: a vivência da Palavra. Desde então, procuro me manter nesta sintonia, de um Deus que se fez Palavra, veio viver entre nós e trouxe a Vida e a Luz (cf. Jo 1,1-4). Esta é a realidade cristã que se traduz numa proposta muito concreta e completa. O novo mandamento nos convida a viver uma vida intensa e focada em Deus e no próximo – o amor recíproco, amando uns aos outros, com a mesma intensidade com que fomos e somos amados por Deus (cf. Jo 13,34). 

Nestes tempos de pandemia, experimentamos o quanto é necessário e fundamental viver o amor recíproco em meio a tantas dores de despedidas e sofrimentos. A solidariedade vivida neste momento de crise sanitária nos remete à vivência da Palavra, que afirma que tudo o que for feito aos pequenos, aos necessitados, é como se fosse feito ao próprio Jesus (cf. Mt 25,40).

As pessoas que procuram assim caminhar formam a comunidade cristã, na qual os discípulos são reconhecidos se tiverem entre si o amor recíproco (cf. Jo 13,35). Este é o modo de existir da comunidade e não há outro. Não se reconhece um membro da comunidade cristã por indicação, pelo cargo, função ou “tempo de casa”. A condição essencial e indispensável para ser reconhecido como discípulo é o amor recíproco.

Na comunidade, a Palavra vivida traz a presença de Jesus entre nós, sempre que dois ou mais estiverem reunidos em Seu nome. Esta presença de Jesus entre nós é também possível, na família, no trabalho, em qualquer lugar, por meio de pessoas comuns reunidas em Seu nome, não sendo necessária outra condição (cf. Mt 18,20). A presença de Jesus entre nós traz alegria, mas não uma alegria fugaz. Traz, sim, uma alegria especial, que se encontra no amor igual àquele com que o Pai nos ama. Se ficarmos neste amor, amando quem está ao nosso lado no dia a dia, a nossa alegria será perene e completa (cf. Jo 15,9-11).

A realidade pela qual estamos passando na saúde, na política, na economia nos leva a buscar a paz, a concórdia, a unidade. Não é sonho buscar o entendimento para uma vida mais justa para todos os brasileiros, pois a Palavra vivida nos indica que, para Deus, é possível até mesmo a unidade de todos (cf. Jo 17,21). Na comunidade cristã, temos, pela fé, a certeza da vida após a morte, pois Deus entregou seu Filho à morte para que, quem crê, tenha a vida eterna (cf. Jo 3,16). 

Passar da morte para a vida, em cada situação do cotidiano, quando nos sentimos fracos, é uma realidade a ser vivida com a prática da Palavra. Sendo eterna a vida, já estamos na eternidade, aguardando a passagem definitiva. Então, Deus que é amor (cf. 1Jo 4,8), amor por excelência, amor maior, sem limites, nos conduz, com sua Palavra, a viver voltados para o próximo, para o irmão, sempre na busca de um mundo melhor, mais justo e solidário, ensinando desde já a nos prepararmos para aquele momento: “Pois eu estava com fome, e me destes de comer; estava com sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me recebestes em casa; estava nu e me vestistes; doente, e cuidastes de mim; na prisão, e fostes visitar-me” (Mt 25,35-36).

Luiz Antonio Araujo Pierre é membro do Movimento dos Focolares, professor e advogado. Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, pós-graduado em Gestão de Pessoas e especialista em Direito do Trabalho.

Comentários

  1. A possibilidade de termos a presença de Jesus onde dois ou mais estiverem reunidos… é a chave para vencermos a batalha do nosso cotidiano. Um desafio a enfrentar com tantas adversidades, é a chave com certeza, não temos outro caminho. É preciso ardentemente desejar e viver isso!

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