A penitência e a temperança

Em tempo de Quaresma, a penitência se insere nos temas principais. Neste período dedicado à conversão, em que se pedem jejum, esmola e oração, a penitência se aproxima do jejum: deixar de comer carne na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira da Paixão; procurar comer menos do que gosta; evitar a cerveja, doces ou chocolate para uns, e salgadinhos para outros; não fumar. Não é só de comida e bebida, porém, que se pode fazer jejum, mas, como nos alerta o Papa Francisco, devemos fazer jejum das ofensas, da intolerância, de guardar mágoas, da raiva…

Pela penitência, estamos reconhecendo que fizemos algo que foi errado, ofensivo às leis de Deus. Mais do que reconhecer, vemos a necessidade de reparar esses danos. Se foi concretamente envolvendo uma pessoa, haverá de se restabelecer, se possível, o de direito ou com proporcionalidade. Mas, de fato, a falta é contra Deus, a penitência se faz mediante o sacramento da Confissão ou Reconciliação. Fica o penitente à disposição do que lhe é solicitado pelo sacerdote. De qualquer forma, a penitência se associa a um sacrifício que fazemos, que manifesta para nós esse desejo interior de reparação para uma conversão, ou seja, deixar o erro reconhecido e reconciliar-se. 

Por outro lado, se somos tão vulneráveis a novas quedas pela nossa natureza humana, haveria de se pensar em um “remédio” que pudesse, pelo menos, diminuir o número de vezes ou a intensidade das ocorrências. Um dos grandes remédios para este objetivo é a virtude cardeal da temperança. “A temperança é a virtude moral que modera a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados. Assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos dentro dos limites da honestidade. A pessoa temperante orienta para o bem seus apetites sensíveis, guarda uma santa discrição e ‘não se deixa levar a seguir as paixões do coração’ (Eclo 5,2)” (Catecismo da Igreja Católica, 1809).

Para se viver a temperança, várias virtudes concorrem: a sobriedade (ou moderação), a serenidade, a prudência, a fortaleza, a mansidão e outras. São virtudes que ajudam o ser humano a conhecer e a moderar suas reações e atrações. Esse comportamento varia muito para cada pessoa, em circunstâncias diferentes da vida ou mesmo em ocasiões pontuais. 

Uma criança se conhece pouco e cabe aos pais ajudá-la a perceber suas características, para, assim, colaborar de modo gradativo nesta percepção para moderação. Crianças que comem exageradamente, ou gritam muito alto no ambiente, ou mesmo se irritam facilmente e ficam violentas por nada… A criança cresce para a adolescência, e alguns já manifestam uma atração excessiva por bebidas alcoólicas, falta de respeito, ganância… Manifestações estas que se não forem educadas em tempo oportuno pelos pais favorecerão comportamentos inadequados, exagerados e até perversos quando adultos. A vida poderá fazê-los reconhecer que está errado, e custará mais para corrigir. 

A temperança, diferentemente da penitência, não é uma atitude de arrependimento. Pelo contrário, a temperança, como todas as virtudes, é um esforço que se faz pela livre vontade por querer se tornar uma pessoa melhor. Assim, esforçar-se por comer o suficiente, não passar o limite da bebida, guardar os sentidos da vista que atraiçoam o coração, descansar o necessário. Respeitar os horários. Fugir de ocasiões sabidamente perigosas. Aquilo que se faz por liberdade mostrará com o tempo os seus benefícios, ainda que custe, principalmente no início. O que se faz ao cumprir a penitência pode trazer um alívio imediato, mas se não se colocar os meios concretos para prevenção dos erros, rapidamente se retornará a eles. 

Lembremo-nos de São José, a quem o Papa Francisco dedicou este ano. Passa pelas escrituras silenciosamente, mas de maneira corajosa aceita e enfrenta todos os desafios. Não faz barulho, mas orienta o Filho de Deus. Não se leva pelas paixões, mas manifesta o maior de todos os amores humanos a Maria. Abraçou sua vocação paternal de modo santo, e vai embora deste mundo sem ser mencionado. São José, rogai por nós. 

Valdir Reginato é médico de família. E-mail: reginatovaldir@gmail.com 

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