A qualidade da democracia depende do número de pessoas que vivem amizades verdadeiras

Sergio Ricciuto Conte

Para continuar a reflexão sobre a amizade em Aristóteles, apresentada numa série de artigos ao longo deste ano, vejamos como ele descreve, em “Ética a Nicômaco”, a amizade entre as pessoas boas e as que são perversas, pois ele diz que uma cidade (ou um país) precisa de um número significativo de pessoas que vivam amizades verdadeiras entre si para ter um bom governo:

“Só a pessoa virtuosa é coerente consigo mesma […] deseja para si o que é bom e o que parece sê-lo, e o faz; […] assim procede para o seu próprio bem; age a partir da própria racionalidade […] Ela deseja viver consigo mesma; realizar aquilo no qual encontra prazer; e o faz com prazer, já que se compraz na recordação de seus atos passados e suas esperanças para o futuro são boas, e, portanto, agradáveis. Tem, do mesmo modo, uma mente rica de reflexões […] Ela não tem, por assim dizer, nada de que possa se arrepender. Logo, como cada uma destas características pertence à pessoa boa em relação a si mesma, ela se relaciona com o seu amigo como faz consigo mesma (pois o amigo é um outro ‘eu’)”.

As pessoas perversas, porém, experimentam o contrário. Passam “os dias a fugir de si mesmas; pois lembram-se de muitos crimes e preveem outros semelhantes quando estão sozinhas, mas esquecem-nos quando têm companhia. E, não possuindo em si nada amigável, não são amigas de si mesmas. […] Sofrem quando se veem privadas de algumas coisas, enquanto a outra parte de sua alma sente prazer; uma parte as arrasta numa direção e a outra na direção contrária, dilacerando-as. […] Os maus são cheios de arrependimento. Por esses motivos, a pessoa má não parece ser amiga de si mesma, uma vez que nela não existe nada digno de amizade”.

Por fim, Aristóteles afirma que não se pode pensar em uma organização social e política sem que um número significativo de pessoas que viva a amizade entre si:

“Uma cidade vive em concórdia quando as pessoas concordam sobre o que é de seu interesse, escolhem as mesmas ações e fazem em comum o que resolveram. É, portanto, a respeito das coisas a fazer que se diz que as pessoas são concordes; e, entre elas, dos assuntos importantes em que é possível a ambas ou a todas as partes obterem o que pretendem; por exemplo, uma cidade é unânime quando todos os cidadãos pensam que os seus cargos públicos devem ser eletivos, ou que convém fazer alianças […]. Há concórdia quando tanto o povo quanto os da classe superior desejam que as melhores pessoas governem; porque assim, e só assim, todos alcançarão o que pretendem. A concórdia parece, pois, ser a amizade política, como, de fato, é geralmente considerada; pois ela versa sobre coisas que são de nosso interesse e que têm influência em nossa vida. Ora, uma tal concórdia é encontrada entre as pessoas boas, pois estas são concordes tanto consigo mesmas quanto umas com as outras e têm, por assim dizer, um só pensamento (já que os desejos de tais pessoas são constantes e não estão à mercê de correntes que vão e vêm); e desejam o que é justo e útil, e os buscam em concórdia. As pessoas más, entretanto, não podem estar de acordo ou serem amigas a não ser dentro de limites muito reduzidos, visto que ambicionam obter vantagens nas coisas que são úteis, enquanto, no trabalho e no serviço público, ficam muito aquém da parte que lhes compete. E cada uma, desejando vantagens para si mesma, critica seu vizinho e lhe impõe obstáculos; de modo que, se as pessoas não cuidarem da comunidade, esta não tardará a ser completamente destruída”.

Ana Lydia Sawaya é professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e fez doutorado em Nutrição na Universidade de Cambridge (Reino Unido). Foi pesquisadora visitante do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e é conselheira do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

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