A responsabilidade cristã frente à liberdade religiosa

Como já noticiado em artigo no O SÃO PAULO, a Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (Aid to the Church in Need – ACN) publicou uma nova edição de seu 15º Relatório sobre liberdade religiosa no mundo.

A ACN atende milhões de pessoas todos os anos por meio de aproximadamente 5 mil projetos em cerca de 130 países, incluindo o Brasil. Promove e financia ações como formação de padres e religiosos, construção e reconstrução de igrejas, obras de recuperação de jovens dependentes químicos, construção de escolas e casas para refugiados no Oriente Médio.

Nos países de tradição cristã, as pessoas sofrem cada vez mais com o que o Papa Francisco chamou de “perseguição educada”, um cancelamento cultural que tolhe o direito de expressão pública às pessoas religiosas. Nos países totalitários e que sofrem com conflitos étnicos, na África e na Ásia, os cristãos são os mais perseguidos. São assassinados, torturados, obrigados a conversões forçadas, têm seus bens confiscados etc.

Num panorama como esse, muitos se perguntam por que a ACN se dedica a um relatório que trata da perseguição religiosa não só a cristãos, mas a muçulmanos, budistas, praticantes de religiões afro etc.? Não deveria cuidar apenas dos católicos?

Na encíclica Fratelli tutti (FT, 62), o Papa Francisco lembra que, “perante a tentação das primeiras comunidades cristãs criarem grupos fechados e isolados, São Paulo exortava os seus discípulos a ter caridade uns para com os outros ‘e para com todos’ (1Ts 3,12) e, na comunidade de João, pedia-se que fossem bem recebidos os irmãos, ‘mesmo sendo estrangeiros’ (3Jo 5)”. 

Ainda no segundo século, período das grandes perseguições ao Cristianismo nascente, os cristãos se apresentaram a um poderoso da época dizendo, sobre si mesmos: “Amam a todos e por todos são perseguidos. Não são reconhecidos, mas são condenados à morte; são condenados à morte e ganham a vida […] A alma ama a carne, que a odeia, e os seus membros; também os cristãos amam os que os odeiam […] Deus os colocou em tal situação, e dela não lhes é permitido evadir-se” (Carta a Diogneto).

Desde sempre, os cristãos têm uma responsabilidade para com o mundo. Não existe Cristianismo sem cruz… E a cruz não é apenas um sofrimento pessoal. É uma doação de si ao mundo, mesmo na perseguição e na hostilidade.

Nos tempos atuais, muitos gostariam de um Cristianismo sem cruz, cercado pelas honrarias e o reconhecimento de tempos idos de uma cristandade triunfante. Mas essa seria, quando muito, uma religião de homens justos, não a religião de Cristo.

Quando nós, cristãos, pensamos a liberdade religiosa, não podemos pensar apenas num direito nosso. Temos que pensar, também, sobre nosso dever perante o mundo. Por doloroso e escandaloso que isso possa ser, esse é o lugar que Deus nos reservou no mundo. Se queremos seguir realmente a Cristo, Dele não podemos fugir, como lembra a Carta a Diogneto.

Tanto o cancelamento cultural, essa perseguição educada, quanto a perseguição física e explícita geram, em nós, sentimento de indignação, raiva e ressentimento. Mas não podemos nos deixar dominar por esses sentimentos. Quem se deixa levar pela raiva ou proclama – em nome de Cristo – o “olho por olho”, do Velho Testamento, na verdade está fazendo o jogo do Inimigo.

Por isso, é tão importante e emblemático que a ACN faça um relatório sobre a liberdade religiosa, pensando em todos os seres humanos – e não só nos cristãos. Por isso, é tão importante que cada um de nós, independentemente das dificuldades, seja cada vez mais capaz de amar o mundo e a todos os nossos irmãos – mesmo quando não concordam conosco e/ou nos atacam.

Francisco Borba Ribeiro Neto é coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

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