A suspensão das missas públicas

Completando-se já um ano desde as primeiras medidas legais de isolamento social por causa da pandemia, eis que se tornou novamente necessário o recrudescimento da quarentena em nosso estado: pelo Decreto nº 65.563/21, publicado no dia 11, ficaram suspensas as missas com presença dos fiéis (artigo 2º, II, “a”).

Antes, porém, de sumariamente julgarmos esta medida, nós, católicos, deveríamos nos lembrar de que, como nos ensina a Igreja, nossa inteligência é iluminada por duas luzes complementares: a da fé e a da razão natural. A Tradição católica, com efeito, rejeitou desde seus primórdios um fideísmo que pretendesse invocar a fé para agir contrariamente à razão (cf. encíclica Fides et ratio, de São João Paulo II).

E sucede que as medidas de isolamento social determinadas pelas autoridades civis são fundadas em conhecimentos racionais sobre as formas de transmissão do vírus, e em “informações estratégicas em saúde, que sinalizam risco potencial de colapso da capacidade de resposta do sistema de saúde no estado de São Paulo” (cf. decreto supracitado). Insistir, portanto, em adotar condutas que aumentam o risco de contágio poderia configurar uma atitude contrária à razão, e uma orgulhosa pretensão de “obrigar” Deus a realizar um milagre…

Por outro lado, é igualmente verdade que, se não podemos negligenciar a nossa vida biológica, a nossa primeira preocupação deve sempre ser para com a vida espiritual (cf. Mt 6,33; 10,28). Agora, então, que a maioria de nós estará privada da assistência pessoal ao Santo Sacrifício da missa, a quais outros meios podemos recorrer para manter acesa a chama da fé (cf. Mt 25,1-13)?

Podemos sempre recorrer às chamadas leituras espirituais – prática antiquíssima e recomendada por todos os santos e mestres da vida interior: diariamente, após um momento de recolhimento e invocação do Espírito Santo, ler com calma e meditação, por dez ou 15 minutos, a Imitação de Cristo; as Confissões, de Santo Agostinho; a História de uma alma, de Santa Teresinha, ou outro livro consagrado.

O Terço diário, atendendo ao pedido de Nossa Senhora em Fátima, pode, inclusive, ser rezado em família, auxiliando a fidelidade e a meditação concentrada dos mistérios da vida de Nosso Senhor.

Também tirarão muitos frutos os fiéis que se iniciarem à oração da Liturgia das Horas – que são aquelas orações “como que um prolongamento da celebração eucarística”, desenvolvidas pela Igreja ao longo dos séculos “de modo a consagrar, pelo louvor a Deus, todo o curso diurno e noturno do tempo” (cf. Catecismo da Igreja Católica, 1.174 e 1.178).

O Catecismo, com efeito, “recomenda (…) também aos próprios leigos que recitem” a Liturgia das Horas, “destinada a tornar-se a oração de todo o povo de Deus” (1.175). E isso porque os hinos e preces ali contidos “inserem a oração dos salmos no tempo da Igreja, exprimindo o simbolismo do momento do dia, do tempo litúrgico ou da festa celebrada”, e suas leituras bíblicas e patrísticas “revelam mais profundamente o sentido do mistério celebrado, ajudam a compreender os salmos e preparam para a oração silenciosa” (1.177).

Para quem ainda não domina o manuseio de um Breviário, um caminho bastante simples é rezar diariamente as Laudes, antes do café da manhã ou do trabalho: não leva mais de 15 minutos e o texto pode ser facilmente localizado em aplicativos ou na internet.

Por fim, é fundamental lembrarmos que as igrejas continuam abertas aos fiéis: é possível fazer visitas particulares ao sacrário, buscar o atendimento de Confissões e até mesmo solicitar ao sacerdote a distribuição particular da Sagrada Comunhão, fora do rito da missa. Rezemos ao Senhor que nos conceda frutos de verdadeira conversão, agora que nos aproximamos de Sua Páscoa!

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