A vacina para todos

Feliz Ano-Novo! Ainda estamos em tempo. Terminamos 2020 com os olhos voltados para a esperança da vacina, que deverá “salvar a todos e restabelecer a normalidade no mundo”. Já escrevi nesta coluna vários artigos sobre o fato mais marcante de 2020 – a pandemia – e sobre a “esperança” da vacina. Portanto, gostaria de deixar de lado a pandemia, neste ano que se inicia, e colocar um outro olhar para 2021. Este, já nos seus primeiros dias, não diminuiu as surpresas no noticiário quanto ao que poderá vir neste conturbado período em que vivemos, um tempo diferenciado na história da humanidade.

Nesse sentido, menciono três votos que enviei, desejando a muitos amigos, no fim de ano: Saúde, Paz e Esperança. Mas de qual saúde estamos falando? Que paz estamos desejando? E em quem estamos colocando a nossa esperança? 

Saúde, na sua raiz latina, vem de salute, salus, ou seja, “salvação”. Os povos antigos não limitavam esta saúde-salvação somente ao bem-estar do corpo físico, mas também da sua salvação na transcendência da dimensão espiritual, visto que a matéria do corpo é finita, mas a alma é eterna. A atuação dos primeiros sacerdotes e médicos, na sua identificação, se confunde nos primórdios da história. Dentre os sacramentos da Igreja Católica está a Unção dos Enfermos, que, podendo aliviar as dores do corpo, volta-se, principalmente, para a vida na eternidade. Essa dimensão foi nos últimos séculos um tanto esquecida e a saúde passou a se limitar ao comportamento sadio do corpo, como sono, alimentação, trabalho, exercícios e lazer. Todos muito importantes, mas que não dispensam os cuidados com a salute para a eternidade do espírito.

O significado da paz mais remoto, indo-europeu, é pak, que significa “estabelecer um marco de limites para que se evitem invasões”. Os romanos desejavam a pax nas saudações cotidianas, de modo a manter limites de respeito e esperança na boa convivência social. No entanto, o sentido da paz assumiu um significado totalmente novo com a saudação dos anjos na noite santa de Natal: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc 2,14). De maneira mais contundente, o próprio Cristo deixa claro o significado da paz: “Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não vos perturbeis nem vos acovardeis” (Jo 14,27). E após a ressurreição: “A paz esteja convosco! Como o Pai me enviou, eu vos envio” (Jo 20,21). Não é somente uma paz humana ou a ausência de conflitos, mas é a convivência íntima do homem com Deus, que o tranquiliza na alma, apesar de todas as rebeliões externas presentes. Lembrando, a pak é evitar as invasões das agitações mundanas, colocando os limites, pela sabedoria e poder divinos, na pax romana.

Por último, chegamos à esperança. Do latim sperare, está vinculado a aguardar bons acontecimentos. Mas não é um aguardar passivo, estático: consiste, sim, em fazer alguma coisa pela qual se espera um resultado favorável. Para nós, católicos, a virtude da esperança está alicerçada na fé em Jesus Cristo e em viver no seu amor. Nele, não temos uma esperança de expectativas duvidosas, mas a esperança de certeza, para a qual está reservada a coroa dos justos, como afirma o Apóstolo: “Combati o bom combate, terminei a corrida, mantive a fé. Só me espera a coroa da justiça que o Senhor, como justo juiz, me entregará naquele dia. E não só a mim, mas a todos os que desejam sua manifestação” (2Tm 4,7-8).

É necessário que os cientistas, bem intencionados, continuem trabalhando incansavelmente pela vacina. Que se agradeça, e muito, o trabalho extraordinário dos profissionais da saúde em benefício do próximo. Quanto a você, não se angustie na espera, não perca a paz, que compromete as energias da boa saúde. Tenha comportamentos pessoal e social responsáveis. Em qual vacina, porém, encontramos estes três componentes fundamentais – saúde, paz e esperança – para o bem-estar de nossas vidas? Na oração. Quantas doses? Doses diárias de encontros com Deus. Inicie a partir de já a sua “imunização”, neste ano dedicado pelo Papa Francisco a São José – mestre da oração e serenidade, e sob a proteção de Maria Santíssima: “Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa”.

Valdir Reginato é médico de família. E-mail: reginatovaldir@gmail.com.

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