Caminhos de uma política melhor

As campanhas para as próximas eleições já começaram, ainda que de forma muito precoce. Num país assolado pela pandemia e pela crise econômica, há muitas coisas para se pensar antes da disputa pelo poder. A realidade, porém, aí está. Sendo assim, começa o tempo de discernimento em busca de uma “política melhor”, nas palavras do Papa Francisco (cf. Fratelli tutti, FT, 176-197).

A recorrência dos escândalos de corrupção, dos conchavos corporativistas entre políticos e a permanência da insensibilidade social e moral das chamadas elites (tradicionais ou recentes) faz com que pensemos muitas vezes que “o Brasil não tem jeito”. No entanto, esse desânimo só piora a situação.

A Fratelli tutti nos ensina que existe uma rota para a construção dessa “política melhor”. O caminho pode ser mais lento do que gostaríamos (cf. FT, 195-196), pois é feito de pequenas conquistas que vão se somando, mais do que de transformações súbitas (que frequentemente se revelam enganosas).

Esse caminho, na reflexão do Papa, se baseia numa aposta, pessoal e coletiva, na possibilidade de o amor orientar a política. Nesse sentido, é uma proposta eminentemente ética. Imbuída de uma verdadeira “caridade social e política”, colocando-nos juntos, em busca do bem comum, tendo em vista sobretudo os que mais sofrem, os pobres e os últimos, ao longo do tempo faremos a diferença.

Esse é um caminho que está sendo construído hoje. Nosso problema é que as ideologias frequentemente nos cegam para o que acontece de bom. Primeiro julgamos a posição ideológica de uma pessoa, para depois olharmos seu compromisso ético com o bem e a verdade. Sempre é difícil encontrar quem pense exatamente como nós e, então, acabamos condenando também pessoas bem-intencionadas. Além disso, tornamo-nos presas fáceis de manipulações por líderes que parecem pensar como nós, mas, na verdade, apenas se aproveitam do nosso ressentimento e da nossa frustração com os demais políticos.

Um dos caminhos mais importantes para a construção, no Brasil, dessa “política melhor” são os movimentos de renovação e as escolas de formação de novos quadros políticos. Em sua maioria, não se filiam a um partido ou a outro e atraem jovens interessados em trabalhar na política de forma mais ética e voltada ao bem comum.

Não são secretos ou coisa parecida, mas costumam agir com discrição, justamente porque não querem se apresentar como forças políticas específicas, mas ajudar a criar políticos mais éticos e conscientes em várias frentes. Por isso, precisamos estar atentos para conhecer seu trabalho e os novos políticos que estão formando.

Alguns destes movimentos e escolas de formação têm forte influência católica ou cristã ecumênica, outros têm origem muita diversa – e podem até parecer em oposição a certos valores cristãos. O que os coloca, apesar da pluralidade de posições, em condições de dialogar é a confiança – nem sempre explícita – no compromisso ético dos jovens que desejam fazer um trabalho político.

A quem pedir será dado; quem buscar encontrará; quem bater terá a porta aberta (cf. Mt 7,7). Muitas vezes, não acreditamos nessa promessa evangélica – e por isso não procuramos com o necessário empenho. Existe sempre gente bem-intencionada procurando construir uma política melhor, mas temos que nos esforçar para encontrá-los.

Nesse caminho, o diálogo e o testemunho são muito importantes. Essas pessoas bem-intencionadas podem ter posições diferentes da nossa em muitas questões (particularmente a defesa da vida e a opção pelos pobres). Por isso, precisam ver e entender nosso testemunho de amor para que todos nós cresçamos na construção do bem comum.

Francisco Borba Ribeiro Neto é coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

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