“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como um bronze que soa ou como um címbalo que retine” (1Cor 13,1). Esse trecho de São Paulo, juntamente com seus versículos subsequentes, compõe o que é tradicionalmente conhecido pela Igreja como “Hino à Caridade” ou “Hino ao Amor”. Durante todo o capítulo 13, o Apóstolo expõe justamente a primazia desta virtude em relação a todas as outras e ensina que ela “nem mesmo no céu, há de acabar”. Entretanto, se é indiscutível o seu inestimável valor, por vezes é falha a compreensão de como praticá-la cotidianamente. Sendo assim, aproveitando o atual tempo quaresmal da Igreja, vale ressaltar uma das formas mais comuns e eficientes de fazê-lo: a ajuda para com os mais pobres.
Em um primeiro momento, nem sempre é tão claro que a caridade, como virtude teologal, pode ser concretizada em ações humanas: por se tratar de algo que se refere diretamente a Deus, pode questionar-se se a única atitude a tomar é orar e pedir que o Senhor a infunda em cada alma. Porém, se é verdade que as virtudes teologais só aumentam pela ação de Deus, da mesma forma é fato que o aumento é concedido em proporção com a bondade moral de nossas ações. Leo Trese explica que “tudo o que aumenta a graça santificante aumenta também as virtudes infusas. Crescemos em virtude tanto quanto crescemos em graça”. Dessa forma, a prática de boas ações torna-se veículo para que cada vez mais o amor de Deus cresça em nosso interior.
Dito isso, se há uma boa ação que constantemente sobressai nas Sagradas Escrituras, essa é a generosidade para com os pobres. No livro do Deuteronômio, no contexto do ano sabático em que geralmente já havia uma escassez maior de bens para serem compartilhados, o Senhor insiste: “Abre a mão para o irmão, para o necessitado e para o pobre de tua terra” (Dt 15,11). No Eclesiástico, Deus também deixa claro: “Filho, não prives o pobre do necessário à vida, nem deixes desfalecer os olhos do indigente” (Eclo 4,1). De igual modo, no livro dos Salmos há o pedido para ajudá-los: “Defendei o oprimido e o órfão, fazei justiça ao humilde e ao pobre. Libertai o oprimido e o indigente, arrancai-o das mãos dos ímpios” (Sl 82,3-4).
Fazer caridade aos necessitados é, portanto, fazer a vontade de Deus. Em uma medida muito tangível, é justamente a realização do mandamento “amarás o próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18). Contudo, com o mistério da Encarnação de Nosso Senhor, isso tomou proporções ainda maiores, porque o Verbo se fez carne, a matéria já não é mera “coisa”: ela foi assumida, elevada e santificada por Deus. Essa lógica transforma a caridade de forma substancial: o irmão pobre não é apenas “alguém”, ele é o próprio Cristo que se fez pobre e se identifica com o faminto, o nu, o prisioneiro. Assim, amar o pobre de modo concreto, tangível, corporal, é amar o Verbo Encarnado.
Essa ideia já estava presente no Antigo Testamento. No livro de Provérbios, por exemplo, é dito que “quem se compadece do pobre empresta ao Senhor, que lhe recompensará o benefício” (Pr 19,17). Com Jesus, no entanto, a gravidade do apego ao dinheiro que impede a caridade é potencializada: na parábola de Lázaro, o rico é condenado por não compartilhar seu alimento, deixando ao pobre apenas as migalhas que caíam de sua mesa. No Sermão da Montanha, também Nosso Senhor nos diz para ajuntar riquezas no céu e não na terra, pois “não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6,24). São Paulo, por sua vez, em diversas ocasiões, equipara a idolatria com a avareza.
Neste final de Quaresma, portanto, não fechemos nossos corações às necessidades do próximo. Todas as riquezas e capacidades que possuímos são como os talentos que Deus pede que nós multipliquemos. Essa multiplicação, entretanto, não se trata de algo material; pelo contrário, se dá todas as vezes em que estendemos a nossa mão, oferecendo, com liberalidade, aquilo que a Providência nos confiou.





