A desordem e o pecado original

Confesso que estava pensando em escrever sobre outro tema, mas esta semana um motorista de Uber me fez uma pergunta que merece reflexão. Já próximo ao destino, do nada e sem relação com o que conversávamos, exclamou: “O mundo está muito ruim, mas eu não entendo o porquê!?”.

Como o tom era de “pergunta retórica” não respondi, mas me senti como que impelido a escrever a respeito; afinal, nós, cristãos, sabemos a resposta.

A origem dessa questão está escondida já na história da criação quando Adão e Eva, envolvidos pelo mal, decidiram trair a Deus. Ao fazer isso, perderam os bens mais preciosos que haviam recebido de Deus: os dons preternaturais.

Entre eles, o que me parece mais precioso e nos faz mais falta é o “pleno ordenamento às coisas de Deus”. Um viver naturalmente centrado em Deus, em que a vontade está submetida à inteligência e esta, ao espírito.

Com a falta deste ordenamento e com a influência do pecado, nos perdemos no fruto da árvore do conhecimento. Agora, achamos que somos conhecedores do bem e do mal, que podemos “ser como Deus”, mas estamos errados, como bem disse São Miguel Arcanjo: “Quem como Deus?”.

A desordem deu espaço para que a vontade quisesse comandar tanto a inteligência quanto o espírito. A arrogância, por sua vez, quis seu protagonismo para se sobrepor aos demais e faz troça do espírito, com suas crendices tolas. E o espírito, aquele que nos conecta a Deus, está amordaçado diante de tantos ruídos e sensações com que o mundo nos submete.

Infelizmente, não estamos sozinhos neste exílio do Eden. Uma terça parte dos anjos está investida em nos manter aqui, longe de Deus. Se foi por causa deles que nos metemos nessa desordem, é com a influência deles que a desordem é promovida em nós e na sociedade.

Internamente, o caminho que nos aproxima de Deus é a escalada da vontade, para a inteligência e dessa para o espírito. Nessa via que nos conecta a Ele por sua vontade e graça, encontramos nossas respostas. Mas o mundo não nos quer nesse caminho.

Ele nos aprisiona no andar da vontade, mantendo-nos confusos sobre nossa identidade, centrados em nós mesmos, escravizados em fazer nosso corpo o rei em tudo o que fazemos. Comer, beber e saciar nossas vontades virou missão de vida.

O andar da inteligência está bloqueado. A cultura do feio, as músicas repetitivas, os ritmos contínuos, a arte sem sentido, a literatura vazia: todos fingem dar acesso a este andar, mas oferecem uma via sem saída, como que uma escada circular que leva de volta ao andar da vontade.

O espírito está aprisionado. Quem busca seu acesso é tratado como um transgressor. Quem busca dar ouvidos a ele é chamado de tolo. Aquele que é a chave de acesso para a Sabedoria não pode ser encontrado.

O andar que nos aproxima de Deus não pode ser alcançado, de forma nenhuma!

E a verdade? Ah, a verdade…

A verdade foi corrompida por ideologias como o relativismo e a pós-verdade. Nunca foi tão difícil encontrá-la. Ao mesmo tempo, nunca houve tantos poderosos a nos querer dizer o que é a mentira.

Assim, cá estamos imersos nesse mundo, em meio à nossa própria desordem, sob a influência do pecado e parece não haver saída. O mundo vive lutando contra uma contradição: sofre as saudades do Criador enquanto grita “Barrabás!”.

O desejo pelo Criador está impregnado em nossa natureza à imagem e semelhança de Deus, e não há o que se possa fazer para mudar isso. Por mais que o homem possa lutar, por mais que o mal possa querer se impor, nunca se poderá remover isso do coração do homem.

Enquanto lutar contra isso, o homem não terá paz.

Assim, o mesmo que pode parecer para muitos como que uma maldição, afinal nunca se poderá pecar em paz, é também a maior chave de esperança. Essa intranquilidade já trouxe muitos de volta para Deus.

De volta ao nosso amigo, o motorista do Uber, podemos dizer: sim, o mundo está muito ruim, mas entendemos o porquê.

E nossa decisão é bastante direta: ou participamos do mundo ou optamos por Cristo.

A desordem é nossa realidade, o pecado é a nossa batalha, o demônio é o nosso inimigo. Mas não estamos sozinhos nesse deserto. O mesmo Deus que nos colocou no exílio, nos resgatou na cruz e estendeu as mãos do Espírito Santo para nossa ajudar.

Ser cristão, contudo, não é como torcer para um time de futebol, em que basta escolher um lado. Por força do Batismo que nos tornou filhos de Deus e do nosso Crisma, que nos elevou a soldados de Cristo, é preciso nos mantermos fiéis, próximos de Deus e fortalecidos por Ele nos sacramentos da Sagrada Eucaristia e da Confissão.

Sigamos, como disse Jesus, “no mundo”, mas não “do mundo”.

Luiz Vianna é engenheiro, pós graduado em marketing e CEO da Mult-Connect, uma empresa de tecnologia. Autor dos livros “Preparado para vencer” e“SocialTransformation e seu impacto nos negócios”, é também músico e pai de três filhos.

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Vera
Vera
10 meses atrás

Muito bom mesmo. Nos faz entender muita coisa.