Não sei para vocês, mas para mim muitas vezes algumas passagens bíblicas ficam na memória por um longo tempo. Seja por uma dúvida objetiva, ou por parecer haver alguma mensagem escondida.
Invariavelmente essa mensagem é desvendada e esclarecida em uma homilia, numa confissão ou numa leitura.
Uma dessas passagens que ficaram muito tempo no meu coração, é aquela em que Jesus diz: “Eu te bendigo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos. Sim, Pai, eu te bendigo, porque assim foi do teu agrado.” Mt 11,25-26
Sou de Exatas e sempre me perguntei: como alguém pode ser sábio e ainda assim não entender o que Jesus diz?
Por muito tempo, essa passagem ficou no campo do mistério. Lembrava-me das passagens dos Salmos que falavam dos sábios, da Sabedoria e sempre respeitei muito o conhecimento das pessoas.
Hoje, muitos anos depois, vejo com muito mais clareza o que Jesus quis dizer ao se referir a estes “sábios” e “doutores” que não conseguem perceber o que está escondido na Palavra de Deus.
Isso, que parece um detalhe, acaba por nos dar uma enorme pista a respeito da realidade dura em que vivemos no mundo de hoje.
Ao olhar as redes sociais, vemos com muita facilidade uma coisa: todos sabem tudo e entendem de absolutamente tudo. Tratam os demais como se fossem a única fonte de toda a sabedoria.
Talvez fosse sobre esse momento também que Jesus fez referência.
Demorei para entender a grande distância que há entre o conhecimento e a sabedoria. De que existem pessoas de um e de outro tipo: a primeira com grande conhecimento, mas pouca sabedoria, e a outra com grande sabedoria apesar do pouco conhecimento.
Para mim, parece estar aí a grande armadilha que o demônio armou para nós.
Já falei sobre isso antes, mas é como aquela prisão de portas abertas da qual o prisioneiro não quer sair. Mantém-se inexplicavelmente enjaulado como se ali, aquele lugar escuro e frio, fosse o melhor lugar do mundo para se estar. E de lá, em altos brados, critica todos os que estão do lado de fora.
Essa prisão tem um nome: arrogância.
O arrogante não comete erros, não precisa se informar mais, não necessita estudar, não tem como melhorar. Não há correção fraterna que corrija um arrogante, nem argumento que o faça notar seu erro. Não há caridade neste mundo que mova o seu coração.
O arrogante está tão cheio de si, revestido de uma estranha sabedoria vinda de vozes da sua própria cabeça, que passa a ter sérias dificuldades em separar a realidade do seu próprio imaginário.
Olha para a vida enxergando como fatos as suas próprias opiniões, projeta o futuro não com base em suposições reais, mas em desejos pessoais. Justifica suas posições frágeis com argumentos muitas vezes ilógicos. Tudo apenas para poder manter-se onde está.
É como um peixe que acha que o mundo é o seu próprio aquário e se ri daqueles que dizem haver um mar infinito.
Essa é a grande armadilha dos nossos tempos. É sobre estes que Jesus falava naquela passagem. Aqueles de grande conhecimento, mas aprisionados em sua arrogância.
Aprenderam muito, mas não entenderam nada.
É por isso que a conversão de Paulo é tão simbólica. Ele também, sábio do seu tempo, perseguidor convicto dos cristãos, teve que cair por terra, ir ao chão e ficar cego para finalmente conseguir enxergar.
Foi por Paulo que Jesus nos mostrou que, independentemente do nosso conhecimento, somos muitas vezes totalmente cegos às coisas de Deus. É disso que Jesus falava, sobre os homens que se acham autossuficientes para tudo.
Infelizmente, e em muitas vezes, nós mesmos somos esses “sábios”.
Que o Espírito Santo nos ajude a entender essa realidade e a distância entre o conhecimento e a Sabedoria. Que nos retire da prisão da arrogância e nos faça humildes, e assim, capazes de enxergarmos o que Deus quer nos dizer em nossas vidas.




