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As lições das obras de misericórdia

Estamos no inverno. Inverno num ano especial – 2020 –, no qual, além do clima que faz sofrer a muitos pelo rigor do frio, do vento e da chuva gelada, ainda se soma a fome, sobretudo naqueles que se encontram desempregados. Muitos sem-teto vivem na incerteza e em perigos nas ruas. Vez por outra, vemos no noticiário as instituições, frequentemente religiosas, que se ocupam de oferecer-lhes os recursos para que se possa minimizar a dor, o sofrimento, o frio e a fome. Parece, então, que “alguém” já está se ocupando disto. Ficamos sensibilizados, até aliviados, em saber que “alguém” está ajudando. Precisamos, porém, aprofundar a consciência: E você o que está fazendo?

Sentimo-nos como uma gota no oceano. Quando vemos algum caminhão descarregar pacotes e pacotes de mantimentos para doação, parece que não somos nada ou o que poderíamos fazer é quase nada diante daquela visão. Quando vemos pilhas de agasalhos sendo entregues e olhamos o nosso armário, não consideramos que a nossa pequenina ajuda poderá fazer diferença. E assim nos acomodamos, porque “alguém” já está fazendo. Será, porém, que este “alguém” é o suficiente? Será que se trata apenas de encarregar os que têm muito a oferecer, e a nossa parte é tão insignificante? Onde está a nossa generosidade pessoal?

As obras de misericórdia (cf. Mt 25,34-40) são palavras dirigidas a todos: dar de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede, de vestir a quem está nu, de acolher o forasteiro, de cuidar de quem está doente; não exclui ninguém. Não se coloca o quanto, mas vale a disposição generosa a este pedido de Cristo, de amor ao próximo.

Na família, as obras de misericórdia são um caminho de educação dos filhos, que não se pode esquecer ou minimizar. Desde muito cedo, fazer os filhos perceber que se acumulam no armário roupas que não servem mais, porque eles cresceram. Que a comida que se deixa no prato é mais do que muitos comem. Que o calor que se tem na cama falta aos que dormem na rua… As obras de misericórdia são uma escola de temperança e generosidade para os filhos. Ter o necessário. Não desperdiçar. Não acumular o que não serve. Assim, aprenderão com o crescimento, saberão privar-se de algo bom e lícito, para poder oferecer esta satisfação pessoal, honesta, a alguém que aprendeu a amar, e que mais necessita.

Na prática familiar, isso passa pela exigência do exemplo dos pais. Exemplo que não precisa ser alardeado, mas que silenciosamente os filhos perceberão que eles se esforçam também em cumprir. Isso estará na vida cotidiana de quantos pares de sapatos compramos, de quanta roupa temos nos armários, de como comemos e bebemos nas refeições, no quanto nos importamos com os demais… Saber ensinar aos filhos a valorizar o quanto eles têm em casa e a observar os que nada tem.

Quando pequenos, pela ordem do guarda-roupa, vamos perguntando o que fazer com isto e aquilo que não serve mais. Sugerir que alguém pode se alegrar em receber aquilo, e que isso é bom. E, com os anos, oferecer o discernimento de ficar muito bem comprando algo mais em conta, e oferecer a diferença para outro que não pode ter. São muitas as ocasiões. Em todas elas, deve se passar a alegria de doar, de compartilhar, não como obrigação, mas por satisfação. Isso pode custar mais aos pequenos, porém, com delicadeza e sem força, recolher de cada um aquilo que está em condições de poder ceder naquele momento, respeitando os limites sem criar rancores.

Os adolescentes poderão falar daqueles que estão na longínqua África, ou desnutridos na Ásia, que merecem atenção, mas estão distantes, para a participação pessoal nas ações sociais. Olhar para aqueles que estão à nossa porta, nas nossas praças e cidade, a uma mão estendida de distância para ajudar na distribuição de comida e roupas. A experiência de conviver nesta realidade não é um “passeio turístico”, mas um aprendizado de aprender a olhar, perceber e pensar como posso ajudar aqueles que mais necessitam.

Não há surpresa se deste envolvimento ocorrerá uma resposta positiva no comportamento. Pode ocorrer o envolvimento de outros amigos que se animam, por curiosidade, mas também por acreditar naquele trabalho. Perceberão que talvez não possam doar mais do que já o fizeram nas coisas, mas agora estão doando do tempo que têm, com alegria. Alcançada a juventude, haverá os que poderão encontrar alguém no grupo que possa compartilhar este modo de vida na constituição de uma nova família cristã. E não faltarão os que se sentirão chamados a se entregar por inteiro ao chamado vocacional para uma vida a serviço de Deus. O caminho está aí; depende de você caminhar…

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