Preciso confessar: gosto muito de política, debates de ideias e discussões acaloradas. Nas redes sociais, prefiro os debates às dancinhas. Prefiro os embates às piadinhas.
Em tempos de eleição, as “timelines” ficam inundadas dessas discussões, é muito ruído e muita opinião. Umas boas, outras nem tanto.
Contudo, no meio de tudo isso há uma triste constatação: as pessoas têm muita dificuldade em debater com argumentos, de forma respeitosa, mesmo que com muita paixão.
Alguns dizem que a rede social é a nova praça pública. Aquele lugar onde, na Idade Média, os grandes retóricos discutiam assuntos importantes. Se fôssemos levados assim àquela época, certamente estaríamos vendo uma pancadaria generalizada.
O fulano vai à rede social, solta um argumento e pede a opinião dos outros. Na primeira opinião divergente, irrita-se e deixa a elegância de lado. Na maioria das vezes, a discussão respeitosa não passa da tréplica.
O que vejo em muitos é uma dificuldade em interpretar a realidade objetiva. Separar o que é a sua opinião pessoal do que são fatos ou verdades comprováveis. Apresentam sua visão de mundo como algo inquestionável, e se alguém apresenta um argumento razoável que coloca em xeque essa visão, começa a gritaria.
Esse é um dos principais frutos nefastos do relativismo subjetivista, que determinou na cabeça de muitos que o que vale é o que cada um percebe. Uma construção de uma verdade individual, como se isso pudesse existir.
Infelizmente, isso não acontece apenas com as pessoas em geral na internet. Muitos comentaristas políticos famosos ou pessoas do jornalismo da TV aberta também escorregam nesta seara.
Recentemente, vi na TV aberta uma discussão sobre “mudanças constitucionais”. A comentarista de política “ensinava” sobre um suposto “princípio constitucional que impede o retrocesso”. Dizia que, por este princípio, “novas leis não podem causar retrocesso, se o fazem são inconstitucionais”.
Sabemos que isso não existe, mas gostaria muito de perguntar como poderíamos definir, na letra da lei, o que é “avanço” ou “retrocesso”, sem esbarrar nas opiniões pessoais.
Outro problema grave, e já tratei aqui, é o orgulho: uma desgraça. Ninguém muda de opinião, ninguém está errado. E é justamente aí que a coisa perde totalmente a graça.
O orgulho aprisiona, não permite enxergar o outro como uma pessoa. O orgulhoso não aprende, não evolui, não escuta as opiniões para enriquecer a sua. Passa o dia indo buscar na “prateleira dos argumentos de terceiros”, pedras para atacar a quem não se submete à sua visão de mundo.
Escaldado, já aprendi em que vale a pena gastar meu teclado ou ficar apenas lamentando a energia perdida. Então, minhas discussões acabam bastante limitadas.
Há algum tempo, fiz um post bem caloroso contra o aborto. Dois minutos para começar a receber pedradas.
Sabia que isso ia acontecer. Como era um fim de semana, me propus a responder todo mundo com a educação que minha mãe me deu e os remédios que meu médico receitou.
A maioria parava na segunda resposta minha. Mas teve um fulano bem dedicado, que começou a dar seus argumentos.
Seguindo minha promessa, respondi a seus comentários um a um. Usei de todos os argumentos que eu tinha. A discussão durou vários dias e algumas dezenas de réplicas.
Ao final, meu oponente encerrou disparando: “Você não vai me convencer, mas gostei muito de debater. Você usou bons argumentos e sem apelar para a questão religiosa. Até a próxima.”
Ah se fosse possível sempre discutir assim!
Contudo, antes de analisarmos os outros, precisamos analisar a nós primeiro.
Como cristãos, temos uma missão muito mais exigente. A de defender a fé, sempre com o uso da verdade e com respeito ao próximo. Necessário tomarmos o cuidado de não usar o escudo da fé e a espada de nossas próprias opiniões para entrar nesse embate, como se fosse uma guerra santa.
Que Deus nos ajude a nos mantermos fiéis a Ele no meio dessa confusão.

