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#FiqueEmCasa e a lição de Madre Teresa

Crise é uma transição de estado que deve ser superada em tempo hábil. Quando isso não acontece, reavalia-se a questão e ela passa a ser incluída na vida cotidiana como um fato a ser administrado. Toda crise deve ter data de validade; do contrário, danos previsíveis – ou não – passam a ser verificados. Não deve ser indefinida e pode representar ocasião para o progresso. Há mais de três meses, vive-se uma pandemia. O pedido #FiqueEmCasa virou um mantra que a população não consegue mais aceitar, sem ter dúvidas. Por quê?

As pessoas e instituições seguiram a orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS), segundo seus critérios de evidências científicas. Acumularam-se tantas contradições, com perdas de vidas e falência econômica, que a levaram ao descrédito. Doença desconhecida que tomou o mundo rapidamente, sem encontrar barreiras, levando todos a conviver com o medo. A pandemia neste País, por diversas causas, que aqui não discuto, transformou- -se, além de problema de saúde pública, em disputa política. A enorme polêmica quanto ao uso de hidroxicloroquina foi fato inédito na história da Medicina. Os dados estatísticos fornecidos, com critérios duvidosos, levam o “terror” à população, alarmada por boa parte da mídia.

As consequências já são visíveis: cresce o número de pacientes que deixam de fazer seus acompanhamentos regulares, tornando-os mais vulneráveis. Crianças não saem mais de casa e, sem espaço para se divertir, alteram seu comportamento. Idosos que ficam isolados entram em depressão. O desemprego, sem a perspectiva de retomada da economia, desestabiliza a família e favorece a violência doméstica. A ameaça do lockdown em bairros em situação desumana acentua o medo, que não permite flexibilização consciente e ordenada. O que se aprendeu e qual o caminho a seguir? Procurei respostas na serenidade de Santa Teresa de Calcutá, que viveu em tribulações permanentes, a respeito do que ela pensa da vida (a seguir, em negrito).

Para Santa Teresa, errar é a coisa mais fácil. E não foram poucos nesta pandemia. E o maior erro é parar de acreditar. Não se acreditou que outros caminhos, outros tratamentos poderiam ser melhores que os escolhidos. Talvez porque se recaiu no que Teresa chama de a razão de todos os males: o egoísmo. “Se eu posso fazer lockdown, com home-office e geladeira cheia, problema de quem não pode ou está desempregado e faminto.” Houve um grande esforço, dentro do possível, a seguir o #FiqueEmCasa, porém nem todos em condições ideais de comodidade, recursos financeiros e alimentação. A crise aperta. O desemprego aparece. O tempo se prolonga. Começa a desconfiança no noticiário de terror, nas orientações contraditórias de governos em atrito. São as pessoas mais perigosas: mentirosas. O que está acontecendo de fato? Acentua-se o medo da morte: o maior mistério, segundo a Santa.

Qual é o caminho? Para Santa Teresa, é preciso perdoar: o dom mais bonito. Perdoar os que erraram nas suas avaliações científicas. Nas orientações desencontradas. O noticiário de pânico e mentiras. Perdoar os que não aceitaram alternativas. Perdoar os que se descontrolam em casa… Ela propõe ação rápida: uma estrada reta. Surgem inúmeras atitudes de solidariedade generosa, sem esperar por decisões superiores. Mutirões de distribuição de cestas de alimentação. Socorro aos desabrigados. Roupas aos que passam frio. São as obras de misericórdia numa estrada reta aos mais necessitados, permaneça, ou não, o vírus. Isso dá a maior satisfação: a de dever cumprido.

O mais essencial para a Santa: um lugar para chamar de casa. Todos redescobriram a importância da família para cada ser humano. Em condições, no entanto, de dignidade e flexibilidade. Isso promove a maior emoção: a paz interior. E, com a paz, vem junto o dom mais eficaz: o otimismo. O otimismo em poder voltar a conviver sem medos. Cuidando-se sim, com orientações pertinentes, coerentes e possíveis à realidade pessoal, resguardando os mais vulneráveis, agindo com responsabilidade social; mas que permita trabalhar, sair, participar das missas, correr pelos parques e praias… Novos desafios poderão surgir. E #FiqueEmCasa!? A data de validade expirou para esta proposta. Para novos desafios, devemos contar com a força mais potente: o amor. Conclui Santa Teresa: Lembre-se: quanto menos temos, mais damos. Parece absurdo, mas esta é a lógica do amor. Se você julga as pessoas, nunca terá tempo para amá-las. Não existe maior pobreza que não ter amor para dar.

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