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Jesus Cristo quer multiplicar os nossos pães e os nossos peixes

No último domingo, pudemos revisitar uma das mais famosas passagens do Evangelho: a multiplicação dos pães (cf. Mt 14,13-21).

Confesso que costumo me preocupar com leituras muito habituais, com medo de entrar no modo “já conheço esta história” e parar de escutar o que ela pode me dizer hoje.

Nessa história, gosto de imaginar o que pode ter acontecido e que a narração bíblica não nos conta. Aquelas coisas que provavelmente aconteceriam se a história transcorresse hoje.

Vale lembrar que, naquele momento, os discípulos ainda não viveram a ressurreição, nem a instrução do Ressuscitado, nem receberam o Espírito Santo no Cenáculo. São ‘seguidores raiz’, lutando com sua humanidade.

Em particular, gosto de imaginar os bastidores da história. Na narração, vemos os discípulos irem até Jesus para alertar que já era tarde, e que era necessário dispensar o povo para que pudesse buscar comida. 

Não parece razoável pensar que isso aconteceu sem nenhuma tensão entre eles. Ao contrário, penso que os discípulos já estivessem agitados muito antes disso.

Talvez algum deles, mais ansioso, já tivesse alertado horas antes: “Alguém precisa avisar Jesus que está ficando tarde!”. Outro pode ter retrucado: “Calma, lógico que Jesus sabe que está ficando tarde, daqui a pouco Ele mesmo dispensa o povo”.

Perto do fim, preocupados com a logística e com a possível irritação do povo, é provável que a maior parte dos discípulos nem estivesse mais prestando atenção ao que Jesus dizia. Eu certamente seria um dos aflitos com tudo isso.

Imagino uma pequena reunião atrás do Mestre, daquelas para decidir quem iria interrompê-Lo para avisar. “Vai você, que é mais cara-de-pau.”; “Eu não, vai você que é o discípulo que Ele ama”.

Quando o horário bateu no limite, alguém decidiu “perder o respeito”, romper o silêncio e ir falar com Jesus: “Tá bom! Eu vou!”

Os demais, em alívio, olhavam com atenção o discípulo chegando e falando ao ouvido de Jesus. Esperavam o retorno do mediador com a ordem para dispersar o povo, mas sabe-mos que não foi o que aconteceu.

Nessa cena hipotética, mas não improvável, vejo a expressão do mensageiro voltando desconcertado para avisar aos demais o pedido de Jesus. Muito mais preocupado do que foi, retornou com a ordem de Jesus para que fizessem o impossível: alimentar aqueles 5 mil homens, sem contar as mulheres. De certo, a rodinha se apertou para entender o que se passava e a agitação tomou conta: “Ele disse o quê?”; ou ainda: “Você falou para Ele que temos apenas 5 pães e 2 peixes?”

Percebendo o “zum-zum-zum” nos bastidores, Jesus se mantinha ali, Senhor dos acontecimentos. Por horas, ensinou o povo, mas nesses minutos da minha imaginação, ensinava seus discípulos. Discursava e observava discretamente, mas com muito amor, as pequenas reuniões que se sucediam atrás Dele. 

Enquanto Ele ensinava, a humanidade deles gritava, bus-cando por uma solução humana. Sabemos hoje que Jesus daria o alimento físico para aqueles que buscavam o Reino de Deus.

E aqui estou sentado na missa ouvindo de novo essa história, e quem Jesus ensina, neste domingo, sou eu e você. Tantas vezes sem atenção ao Ressuscitado ou sem permitir a ação do Espírito Santo, ficamos focados em que Jesus dê, aos nossos problemas “logísticos”, uma saída humana. 

Ansiosos como os discípulos, não estamos mais prestando atenção: “Jesus precisa agir”. Em nossas orações, repetimos a mesma agitação: “Jesus está distraído, já passou da hora!”

Onde estão, porém, “nossos pães e peixes”? Se Jesus nos chamar para realizar o milagre, o que temos para que Ele multiplique?

Se rezamos pedindo um milagre, é preciso que antes façamos tudo o que está ao nosso alcance, por pouco que possa parecer. Deus não realizará nada em nossa vida sem a nossa ajuda. Deus não multiplicará os pães que não lhe dermos.

Como disse Santo Inácio de Loyola: “Orai como se tudo dependesse de Deus, e trabalhai como se tudo dependesse de vós”. Foquemos, então, em ter sempre à mão algo que Jesus possa multiplicar. 

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