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O que nos cabe

Há prestígio no desespero. Quem anuncia a catástrofe parece mais lúcido do que quem ainda espera; quem declara que nada mudará parece conhecer melhor os homens do que quem insiste em agir. O desencanto virou credencial intelectual. Também no Brasil é fácil ceder: basta abrir o jornal para concluir que sabemos como tudo terminará.

Em 23 de setembro, a Igreja celebra São Pio de Pietrelcina. Padre Pio atravessou duas guerras, sofreu investigações e restrições em seu ministério sacerdotal e ouviu penitentes confiarem-lhe o que os homens preferem esconder. Ainda assim, ficou associada a ele uma máxima desconcertante: rezar, esperar, não se preocupar.

Maria Winowska mostra como Padre Pio unia oração e meios humanos. Segundo a biógrafa, insistia para que os doentes procurassem os médicos: era preciso primeiro esgotar os recursos naturais. Diante de uma operação difícil, respondia invariavelmente: “Faça a operação”. E acrescentava que rezaria muito. “A oração ajuda o bisturi”, observa Winowska. Não era indiferença nem passividade: era fazer o que nos cabe e confiar a Deus o que não está em nossas mãos.

Foi assim que Karol Wojtyła agiu em 1962. Em Roma para o Concílio Vaticano II, soube que sua amiga Wanda Półtawska, médica, sobrevivente de Ravensbrück e mãe de quatro filhas, estava internada com suspeita de câncer e operação já marcada. Não procurou substituir o tratamento. Escreveu a Padre Pio, pedindo que rezasse por ela. Dias depois, antes da cirurgia, os médicos constataram uma recuperação inesperada. Em 28 de novembro, escreveu de novo. Para agradecer. Quarenta anos depois, João Paulo II canonizaria aquele frade.

Não conto a história como prova da eficácia da oração. Seria transformar Deus em um mecanismo e a fé numa técnica. O que me interessa não é a cura, mas o que Wojtyła fez antes de saber se haveria cura.

Isso ajuda a compreender o homem que, em outubro de 1978, disse na Praça de São Pedro: “Não tenhais medo”. Não era psicologia positiva. Wojtyła perdera cedo a mãe, o irmão e o pai; vivera a ocupação nazista, trabalhara em uma pedreira e estudara para o sacerdócio na clandestinidade. Depois, convivera sob o comunismo. Sua coragem não se fundava na certeza de um desfecho favorável, mas em Cristo.

Já Papa, guardava sob o tampo do genuflexório de sua capela pedidos de oração vindos do mundo inteiro. Falava de uma geografia da oração. Cercado de relatórios, crises e chefes de Estado, fazia diante de Cristo um movimento inverso ao da política: devolvia nomes ao mapa.

Há semanas, tentando levar isso a sério, carrego uma lista de nomes: ministros, juízes, parlamentares, pessoas cuja atuação acompanho de perto. Procuro rezar por elas. Algumas entraram facilmente; outras ainda não entraram, e sei quais são. A lista não mudou ninguém, mas muda como leio certas notícias. É difícil reduzir alguém ao adversário quando se tentou colocá-lo diante de Deus.

Não escrevo como quem aprendeu a lição; ainda a estou aprendendo. Talvez o leitor também conheça essa dificuldade: há nomes que a inteligência admite na oração, mas que o coração demora a aceitar.

Talvez pessimista e otimista se pareçam mais do que imaginam. Ambos querem saber como a história termina: um anuncia a catástrofe; o outro, o final feliz. A esperança cristã não é uma terceira previsão. Não sabe se amanhã as notícias serão melhores. Faz outra pergunta: em quem confio? O que me cabe fazer hoje?

É por isso que o desespero tem prestígio: parece lucidez e, no fim, dispensa-nos de continuar. A esperança exige o contrário: agir sem a garantia de vencer. Rezar, esperar, não se preocupar não é desconhecer o noticiário. É recusar ao noticiário a última palavra.

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