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‘Quarentite’: o que é isto?

O sufixo ite, nos termos relacionados à área da Saúde, significa “inflamação, que gera dor e não permite o adequado funcionamento do órgão”. Assim temos sinusite, tendinite, meningite, gastrite etc. O que estamos vivenciando hoje no comportamento de muitas pessoas é uma variável que denomino “quarentite”. Uma inflamação por período de quarentena prolongada, que já chega a quase 100 dias! Os sintomas começam de modo inespecífico e, progressivamente, vão se tornando mais característicos, constituindo-se uma verdadeira síndrome, ou seja, em Medicina, um conjunto de sinais e sintomas que caracterizam uma determinada condição de doença. Alguns poderão dizer: “Além da pandemia, agora mais esta!” Não. Não é este o intuito de falarmos da “quarentite”. Pelo contrário, é importante que nos conscientizemos que muitas reações que estão atualmente presentes na população são alterações comportamentais esperadas diante do que estamos passando. Podemos modificar, positivamente, este comportamento para nos prevenirmos, ou mesmo sairmos deste quadro.

O panorama pode ser muito variável na sua intensidade e duração, como qualquer outro problema. As suas manifestações variam de acordo com as condições das pessoas, da sua cultura e do seu habitat. Vivemos num país onde o clima é maravilhoso. Somos um povo afetivo, de calor humano, do beijo e do abraço, que ri e que chora, das cores e danças, da praia e do sol, de alegria… e da liberdade! Não temos experiência de conviver com meses de neve e frio insuportável, que confinam as pessoas. Não conhecemos horários de acordar com lua ou dormir com sol. Não temos a educação ditadora de obedecer ou morrer. Somos o País do “jeitinho”. Que acolhe o mundo inteiro e gosta de visitar. Um povo que reza, que vai à missa, faz promessa para o Santo, caminha em procissão da Virgem e tem fé em Deus. Isso é uma constatação diagnóstica.

De repente, tudo é tirado: #FiqueEmCasa. Para a maioria, um lugar pequeno. Muita gente. Desconfortável. Inseguro. As consequências já falamos anteriormente (em outro artigo): começa a faltar tudo, menos o noticiário que apavora. Para os bem favorecidos, tudo mudou. O home-office, sozinho, já deu tédio. Entre os que têm filhos pequenos, cresceram as dificuldades. Fechou a academia. Não tem chopinho na sexta-feira, nem restaurante no fim de semana. Teatro, adeus. Amigos, só por celular. Visitar e viajar, esquece. Cumprimento, de máscara e pelo “cotovelo”. Mesmo aos mais afortunados, fugir para a casa da praia ou fazenda tornou-se impraticável, deu data de validade as “férias”. Para os mais idosos, a solidão. Aí pode se instalar a “quarentite”.

Os sintomas de desânimo, cansaço (“Estou fora de forma”), dores musculares (sedentarismo), má digestão (comer sem disciplina), irritabilidade, insônia, falta de horizontes nítidos começam a preocupar. Para os que estavam, por qualquer motivo, em acompanhamento de psicoterapia, isso pode ser mais intenso. O choro, a tristeza e a própria depressão. É preciso mudar esta situação, urgente! É preciso fazer o diagnóstico: você está no grupo dos sem sintomas ou dos sintomáticos?

Os assintomáticos devem ser agentes transformadores em seus ambientes. O remédio fundamental é a alegria, com compreensão. Temos que voltar a ser alegres. Ter um olhar positivo. Buscar as atividades que faziam a família sorrir, se divertir. O confinamento prolongado leva à sensação de prisão, mesmo em casa. Precisamos sair. Como?! Com responsabilidade, com os cuidados já conhecidos, mas sair. Isso não significa se envolver em aglomerações, mas poder andar na rua e ver vitrines. Andar ao sol. Sentir o vento no rosto. Ir às igrejas, que já se abrem. Ver pessoas presencialmente e sem medo. Levar os idosos a uma volta de carro pelas avenidas. É preciso ter paciência com os mais vulneráveis da “quarentite”. Não forçá-los. Ter respeito. Devagar, demonstrar amizade, compreensão, que os tire dessa sensação de solidão e medo, sem data para terminar. O confinamento não é receita de saúde coletiva. Já escrevi sobre esta polêmica, assim como a dos medicamentos, em artigos anteriores.

Pode parecer irresponsável tudo isso? Temos uma doença? Sim, e muitas outras, que vamos enfrentá-las com os recursos disponíveis. Ficaremos trancados esperando a vacina? É segura? Quando virá? Já falam de “outra onda” na Europa, mas o povo está buscando alternativas para continuar a viver, sem se aprisionar, de novo. Precisamos ventilar nossas mentes e nossos corações com ar puro, com sol e calor humano. Precisamos voltar a encontrar alegria no que fazemos. A vida não espera para ser vivida, mas nos convida a cada momento. Qual a sua resposta?

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