Queridos leitores, desculpem o desabafo, mas estou muito cansada dos rótulos que estão sendo largamente distribuídos: criação afetiva, criação neuro compatível, disciplina positiva, comunicação não violenta, desmame gentil – isso para falar de educação dos filhos – sem contar as inúmeras teorias de liderança sentimentalista, que pregam um excesso de cuidado e motivação, a necessidade de ser querido pela equipe, de ser um verdadeiro “manobrista” de emoções e comportamentos imaturos. Tudo o que se fala precisa ser muito calculado para não gerar estresse.
Se ampliarmos ainda mais o olhar, encontraremos as caixinhas determinadoras – os tatuados (são de classe média baixa com nível cultural duvidoso), os que fazem lutas marciais (fortes, disciplinados e virtuosos), os gordos (não confiáveis, escravos da gula), os tradicionalistas (farisaicos, ditadores de regras morais), os que se separaram e voltaram a morar com os pais (imaturos, dependentes, fracos), enfim, onde estão as pessoas únicas e irrepetíveis que têm de ser verdadeiramente conhecidas como são e compreendidas nas circunstâncias que vivem?
Olhando para a Educação dos filhos, será que podemos dizer que somente respeitam a criança aqueles pais que seguem esta ou aquela proposta engessada e recém-criada de parentalidade?
Eu me assusto quando vejo tamanha limitação – percebo e recebo em meus atendimentos pais inseguros, sem ação, porque seguem “manuais” que ditam se devem agir desse ou daquele modo, que devem falar isso e jamais falar aquilo, que determinadas atitudes poderão prejudicar muito os filhos, trarão marcas negativas…. e com isso algumas gerações de pais estão completamente inseguros e sem ação educativa eficiente. Por medo de errar, traumatizar, ou por preguiça de pensar, abandonam os filhos aos seus próprios impulsos e assistem ao crescimento deles como se fossem plantas.
Ninguém mais sabe fazer o básico bem-feito: orientar, corrigir com amor e firmeza, formar os filhos para que sejam homens de bem – fortes, resilientes, que sobrevivam às intempéries da vida e aprendam com elas.
O que muitas gerações de pais fizeram por séculos – decidiram o que a criança comeria, que roupa vestiria, que escola estudaria… hoje se tornou quase crime: como a criança não escolhe sua própria roupa, como não decide o que comer, não posso obrigá-lo a ficar sem celular se todos têm… O que aconteceu com a capacidade de pensar, de entender a missão e papel de cada um na relação, de se posicionar com clareza e sem medo de perder o amor dos filhos? Que medo é esse de traumatizar??
Importante que saibam: não há vida sem traumas, não existe existência sem dificuldades e adversidades. Ser sempre amado e nunca odiado é humanamente impossível…
Na vira real, não seremos pais perfeitos, mas podemos ser suficientemente bons, como diria Winnicott. Iremos errar, mas podemos aprender com nossos erros, corrigi-los e iluminar a vida dos nossos filhos com a humildade que isso reflete, pois essas alminhas em formação dependem de nossa luta por conduzi-las na aprendizagem sobre a vida.
Não há receita pronta, e muito menos perfeita, do tipo “As 3 coisas que você deve fazer para seu filho ser honesto” ou “As 3 coisas que não deve fazer para que ele não se envolva com pornografia”. As pessoas são complexas e as circunstâncias são diferentes – o que funciona para um nem sempre funciona para o outro.
Portanto não há caminho fácil, o que há – e essa é a boa notícia – é caminho mais seguro, aquele que conduz a Deus, o caminho do compromisso árduo com a formação própria e dos filhos, o caminho da certeza de que o melhor é quase sempre o mais trabalhoso. O caminho de conhecer a cada filho e de saber-se guia de cada um preparando-os para a aventura de viver, para tornarem-se o melhor que podem ser. Não se contentem com receitas fáceis e com caixinhas, somos mais que isso.





