Na manhã de 21 de setembro, eu percorria a edição digital de O Globo quando uma fotografia me obrigou a voltar algumas linhas. Uma moça de vestido rosa, sorridente. Milena Rodrigues, 27 anos. A manchete dizia que ex-católicos representam um terço dos evangélicos brasileiros. Li os números. Depois os esqueci. O que não esqueci vinha logo abaixo: Milena fora “batizada e crismada pelos pais conforme os ritos do catolicismo”.
Batizada e crismada. Para o jornal, é biografia. Um católico lê essas palavras de outro modo. Um dia, aquela mulher foi uma criança levada a uma pia batismal. Houve água sobre sua cabeça, uma vela acesa no Círio Pascal, o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Depois, a Primeira Comunhão. Mais tarde, o óleo sobre a fronte e seu “amém”.
E, em algum momento, ela foi embora. É essa frase que me custa escrever.
Não me inquieta saber se o Brasil será menos católico em 20 anos. A Igreja já foi enterrada, muitas vezes, por coveiros ilustres. Voltaire repetia: “Esmagai a infame”. A Revolução transformou Notre-Dame em Templo da Razão. Nietzsche, em “A gaia ciência” (1882), anunciou que Deus estava morto. Seus herdeiros, com mais gráficos e menos talento, continuam lendo cada pesquisa como um atestado de óbito. Seria pobre a fé cuja verdade dependesse de um censo.
Milena, porém, não é um censo. Milena tem um nome. De fora, alguém mudou de religião. De dentro, uma pessoa que recebeu os mesmos sacramentos que eu e comungou da mesma Eucaristia já não está conosco. Não é uma derrota estatística. É uma ausência.
São João conta que, depois do discurso do Pão da Vida, muitos discípulos “se retiraram e já não andavam com Ele” (Jo 6,66-67). Não eram inimigos. Tinham caminhado com Ele. E partiram. Jesus não corre atrás deles. Volta-se para os Doze: “Quereis vós também retirar-vos?”
O Evangelho que conta partidas, porém, está cheio de retornos. Na parábola do filho pródigo, Lucas registra: o filho “estava ainda longe, quando seu pai o viu” (Lc 15,20). A história também os conhece. Paul Claudel, um dos grandes poetas franceses e mais tarde diplomata no Rio de Janeiro, fora batizado e fizera a Primeira Comunhão. Aos 18 anos, já não tinha fé. No Natal de 1886, entrou em Notre-Dame, mais por curiosidade estética do que por devoção. À tarde, retornou às Vésperas. Junto a um pilar, ouviu o coro cantar o Magnificat. Anos depois, em 1910, em um poema a que deu o mesmo nome, escreveria: “E eis que, de repente, sois Alguém!” Deus tornara-se Alguém para ele. Não uma conclusão, mas uma presença que surpreende, como quem entra em uma sala que julgava vazia e descobre que era esperado. Claudel ainda levaria anos para voltar aos sacramentos. Mas voltou.
Não sei onde termina a história de Milena. Sei que aquelas duas palavras me fizeram pensar nos que ficamos. Quantos afilhados receberam de nossas mãos uma vela que nunca mais nos viram acender? Quantas vezes ensinamos o preceito antes da beleza, a obrigação antes do encontro? Talvez não expliquem Milena. Explicam algo sobre mim.
Voltei à fotografia. Ela continuava ali, sorrindo. Não abandonou Deus. Continua procurando-O. Naquela manhã, disse seu nome em uma oração. Talvez caiba à Igreja, quando alguém parte, não dar por concluída uma história que Deus ainda escreve. E continuar olhando a estrada.



