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Serenidade e solidariedade

Aos poucos, a vida cotidiana vai retomando os seus passos livres, após meses de confinamento, hoje bastante questionável. Sobrevivemos a um cenário de previsões apocalípticas, e, ainda com a convivência de medidas de segurança, já é possível olhar um horizonte, com nuvens de incertezas, mas com uma luz de esperança. Um ano de experiências novas. Mudanças de hábitos no comportamento social atingiram desde o famoso home office (já muito comentado nesta coluna), até um fechamento prolongado e injustificável que permanece nas escolas, incluindo uma convivência on-line (virtual) muito mais frequente do que a presencial. As pessoas acostumaram-se a viver em “lives”, e o celular passou a reinar mais do que nunca como ponte de comunicação para o mundo. Comunicação esta que perdeu total credibilidade pelo noticiário oficial, pelas instituições que deveriam orientar as medidas de saúde mundial (Organização Mundial da Saúde), sendo substituídos por mensagens individuais em que a verdade passou a ser sinônimo de dúvida ou opinião.

Em meio a tudo isso, a vida precisa seguir. Algumas experiências serão incorporadas em caráter permanente aos costumes, como a maior atenção aos cuidados de higiene; outras serão adaptadas aos casos possíveis, como a alternativa do home office em certas profissões; a formação acadêmica se fortalece cada vez mais para cursos on-line em muitas áreas; e oportunidades de novos empregos e empreendimentos surgem pela criatividade promovida pelas necessidades da sobrevivência diante do período da pandemia, mas que se firmam como novas opções de mercado.

As famílias começam a se reencontrar nos ambientes de visitas, ainda em regime fechado; o pânico, pouco a pouco, porém, vai sendo substituído pela necessidade de nos sabermos seres sociais, em família. As notícias da Europa, futuro dos dias na América Latina, já acusam a negativa de se retomar ao lockdown, e a necessidade de convivermos sem a expectativa breve de uma vacina. Vacinas que são apresentadas como “salvadoras”, de procedência sem credibilidade de seus fornecedores, e sem qualquer respaldo científico pelos laboratórios de maior experiência na área.

A transição exige paciência e serenidade, para que possamos manter as lições de solidariedade aprendidas durante este período. O efeito “descompressão brusca”, observado frequentemente após longos períodos de confinamento, deve ser evitado, para que não passemos dos limites do aprendizado, e mantenhamos a liberdade segura. Fato este que desde já deve ser advertido para os foliões do carnaval, em que a memória curta do homem pode colocá-lo sob os riscos já muito conhecidos.

O cenário do quebra-cabeça iniciado em janeiro vai se fechando, e mais uma vez ouvimos o ditado: “O tempo é o senhor da verdade”. Não se pode deixar de ver a transcendência do momento presente, principalmente para aqueles que professam a fé cristã. Não se trata de se prolongar em uma análise neste espaço, apontando culpados, ou teorias conspiratórias; mas a somatória dos fatos ocorridos na pluralidade de suas manifestações, sequencialmente orquestrados, em toda a vida social em extensão mundial. Torna-se claro o suficiente, mesmo a um cego, que o que vivemos não é simplesmente o resultado de um vírus que surgiu na natureza e gerou uma pandemia. Que cada um faça a sua reflexão pessoal.

Diante disso, acredito que cabe a cada um de nós, com a fé que nos alimenta a esperança, permanecer solidários àqueles que ainda sofrem muito (e não são poucos) os efeitos gerados pela pandemia. Isso inclui tanto as causas materiais pela falta de emprego quanto o amparo emocional e espiritual pelas perdas. No entanto, tanto numa situação como na outra, não podemos nos esquecer de que a nossa força maior na recuperação e solidariedade aos demais está em obedecer ao que, há pouco mais de um século, a Virgem Santíssima nos pediu insistentemente em Fátima, em contexto semelhante aos dias de hoje: “Rezem”! Aqui está o nosso caminho, aqui está a nossa melhor arma, aqui não podemos nos omitir.

Valdir Reginato é médico de família. E-mail: reginatovaldir@gmail.com.

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