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Uma Ave-Maria no escuro

Primeiro veio a luz no retrovisor. Depois, a sirene. A avenida já estava quase deserta. Encostei, e a ambulância passou deixando no carro um silêncio maior que o anterior. Não sabia quem transportava. Rezei uma Ave-Maria. Devo esse hábito a um amigo que, cansado de me ouvir protestar contra as sirenes, sugeriu uma troca: menos irritação, mais oração. Hoje, quando uma ambulância passa, confio a Deus alguém de quem ignoro tudo, até o nome.

O cético sorrirá. Como ajudar quem não conhecemos? E, se Deus sabe tudo, que sentido tem informá-lo? Perguntas justas. Uma fé que se irrita com perguntas talvez esteja menos segura de si do que pretende.

Há, porém, uma circunstância que torna essa oração menos abstrata. Algumas pessoas morrem sem que ninguém saiba onde estão. São enterradas, às vezes, antes que as procurem. Alguém que eu amava conheceu esse destino; só o encontramos dias depois. Desde então, ao entrar em um cemitério, rezo sobretudo pelos mortos que já não têm quem reze por eles. Quem sabe se, naqueles dias, um estranho não fez o mesmo por quem eu procurava?

O materialista objetará: palavras perdidas, dirigidas a quem deixou de existir. É uma hipótese respeitável. Mas não é uma conclusão imposta pela ciência. Um atestado de óbito comprova a morte; não resolve, por si só, o destino último de uma pessoa. Confesso que a objeção me visita em certas noites. A dúvida, afinal, também conhece a porta dos crentes.

Os egípcios talhavam na pedra os nomes dos mortos para defendê-los do esquecimento. Nós inventamos arquivos sem fim, câmeras em cada bolso, nuvens digitais em que imaginamos depositar a eternidade. E quantos de nós ainda sabem os nomes de todos os seus bisavós? Bastam algumas gerações para que um rosto seja uma fotografia sem legenda. Jamais acumulamos tantas lembranças; raramente soubemos tão pouco sobre o que significa lembrar. Uma coisa é sobreviver na memória dos outros; outra, continuar existindo.

O Credo não promete a imortalidade dos nomes. Afirma algo maior: “Creio na comunhão dos santos”. Não apenas os canonizados, mas os fiéis que vivem, os que se purificam após a morte e os que contemplam Deus pertencem, em Cristo, a um mesmo corpo. A morte separa os que se amam; não tem, porém, o poder de dissolver esse corpo. A pessoa esquecida pelos homens não está esquecida por Deus.

E nessa comunhão, ensina o Catecismo, nenhum bem realizado por amor termina em quem o praticou. Não é uma contabilidade de favores celestes. Santo Tomás explicava que não rezamos para alterar os desígnios de Deus: rezamos porque Ele quis conceder certos bens mediante a oração. Para mim, o destinatário da oração pode permanecer incógnito. Para Deus, não.

Há um momento da missa que resume esse mistério sem alarde. Na Oração Eucarística II, a Igreja recorda os defuntos e acrescenta: “E de todos os que partiram desta vida”. Uma frase breve, na qual cabem os sepultados sem visita, os esquecidos da família, o desconhecido levado por uma sirene. A liturgia não exige certidão de parentesco para interceder por alguém. Nesta semana de Finados, quando os cemitérios se enchem de flores, ela se lembra também dos túmulos nos quais nenhuma será deixada.

Não sei se minha Ave-Maria ajudou a pessoa daquela ambulância. A fé não me fornece recibos. Mas me oferece uma certeza: a comunhão dos santos é real. E talvez eu também tenha recebido, sem saber, a oração de um desconhecido – em uma noite em que já não tinha coragem sequer de pedir ajuda.

Na avenida vazia, o semáforo continua a abrir e fechar a noite inteira, como se ninguém passasse. Passa sempre alguém.

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