Vamos virar a página…

Antecipo que alguns fatos citados serão difíceis de ler, devido à dor e ao sofrimento que têm acometido a população em geral e algumas famílias em particular. Tenho constatado que, apesar dos dados acessíveis na internet e no noticiário, muitas pessoas não procuram relacioná-los entre si. Portanto, julgo ser imprescindível mencionar alguns para justificar nosso raciocínio.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2018, faleceram cerca de 1,3 milhão de pessoas neste País, ou seja, ao redor de 3.500 pessoas por dia, sem a COVID-19. Destes, 70% eram pessoas com mais de 60 anos e portadoras de comorbidades, exatamente o mesmo público mais comprometido pela COVID-19. A curva de óbitos atual é ascendente, com média de 600 vítimas por dia na última semana (quando escrevo), das quais, certamente, muitas estariam incluídas no obituário, mesmo sem o coronavírus. Chamo a atenção que o alarmante noticiário, num determinado dia, fala a respeito de 900 mortes; outro, de 350 óbitos por dia, naquela mesma data, o que confunde as pessoas. Os registros não são imediatos, e uma epidemia não evolui com altos e baixos tão diferentes em 24 horas. Noticiar “novos recordes” assusta mais. Ninguém comenta quantos teriam falecido sem o vírus, pois, em algumas cidades, salvo por morte violenta, quase todos são considerados óbitos pela COVID-19. Fica a impressão de que ninguém deveria ter morrido nesse período, se não houvesse o vírus; e aí está um gravíssimo erro, como já mencionamos. Onde estão os que não faleceram por coronavírus? Muitos, na verdade, estão no obituário como COVID-19 por determinação da lei. Tire o leitor suas conclusões.

Vamos às medidas de saúde. Este tema é difícil e pantanoso: em mais de 2 mil artigos publicados, há vários que apontam propostas de tratamento com a utilização de um medicamento barato, conhecido há décadas, com resultados positivos, segundo seus autores, se oferecido precocemente nas doses e condições adequadas. Surpreendentemente, esses autores foram ignorados. Em um trabalho na Amazônia, com 40 pacientes que tomaram uma dose exagerada e tóxica, desproporcional do uso habitual deste medicamento, 11 vieram a falecer, desqualificando seu uso para tratamento. Medicamento que nem sequer tinha seu receituário controlado, amplamente utilizado para tratar malária há 70 anos; e não se faziam graves restrições ao seu uso, como passaram a ser feitas agora, em tempos de coronavírus. Na falta de melhor opção, isto é, pelo menos uma decisão estranha, que foi contestada por colegas que usam a droga há anos. A “ciência”, no entanto, falou mais alto, à espera de melhores e mais seguras evidências. Uma vez não tratados precocemente, segundo a orientação mencionada, desencadeiase a necessidade de internação de tais pacientes, e pela gravidade, de grande quantidade de leitos de UTI, com profissionais qualificados para uma assistência complexa. Enquanto isso, cresce a lista do obituário: está criada a situação de calamidade pública. Tire o leitor suas conclusões.

O sistema de saúde não dispõe de leitos suficientes – não é de agora – e não há equipes qualificadas em quantidade, mesmo com esforço heroico, a quem aplaudimos, para atender à demanda. O cenário apocalíptico está feito. Resta ampliar as instalações hospitalares com leitos equipados com aparelhos caros, que deverão ser comprados sem licitação: a vida não pode esperar. No noticiário, soma-se, às graves dificuldades econômicas, a indignação das compras superfaturadas. Propaga-se, voz corrente, a “nova normalidade”, na qual milhões são amedrontados a viver o seu cotidiano como se morassem confinados num centro cirúrgico, com tudo esterilizado, até eventual vacina… Proposta que falta com juízo de bom senso da realidade. Tomam-se atitudes “muito questionáveis”, como decisões fechadas. Crescem a confusão e o pavor nas pessoas, impotentes e incapazes de cumprir o exigido, “para sobreviver”. Tire o leitor suas conclusões.

Finalizando, vamos orientar, conscientizar, manter condutas possíveis de higiene e prevenção para cuidados de convivência e transporte, que são de responsabilidade social. É preciso, porém, virar a página, voltar ao mundo real que não para, e continuar a viver com serenidade. Os recursos tecnológicos serão usados, mas sem o endeusamento que ignore a dura realidade da morte, que existe desde o jardim do Éden. A dor pelo sofrimento e o luto são condições humanas que valorizam este esforço pela dignidade, solidariedade e responsabilidade pela vida; sem esquecer, porém, mediante a fé e a esperança da sua eternidade.

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