De nossas batalhas quaresmais…

De repente, mais uma Quaresma. E, não mais que de repente, estamos na metade dela. A cada ano, vivenciamos este tempo de maneira diferente, pois também nós estamos “modificados”. Em Lc 10,38-42, quando Jesus visita Marta e Maria, o texto assegura: mais importante do que fazer as coisas, é fazê-las de uma maneira sempre nova. E, para que aconteçam as novidades de nossas ações, é necessário que estejamos com os ouvidos bem abertos, atentos, dispostos a ouvir a Palavra do Senhor; Ele mostra o que fazer e ensina como fazer. Quem se acostumou a ouvir a voz do Senhor não se comporta como inimigo da Cruz. Somos cidadãos do céu, mas somos também os carregadores de cruzes pela vida afora: cidadãos do mundo; embora – filhos eleitos – destinados à “vida além da vida”. O demônio deseja que ninguém se dê conta de que é filho amado de Deus. E fica feliz quando você pensa que nada vale, pois assim fica semelhante a ele. Deus vê o bem. O capítulo primeiro da Sagrada Escritura diz: E Deus viu que tudo era bom!

A lamúria é um louvor ao príncipe das trevas. Em Lc 11,14-28, há um relato sobre a ação demoníaca no mundo e na vida das pessoas. A cura de um endemoninhado mostra que Jesus tem o intuito de curar um homem que era impedido de falar. É uma ação que testemunha a chegada do Reino de Deus, pois para vencer satanás, é preciso ser mais forte que ele. Esse trecho mostra que Jesus é, ao mesmo tempo, a presença da salvação e do julgamento: quem não age com Jesus, torna-se adversário Dele. Escrevi acima, e repito: quem não dá valor à voz do Senhor, termina comportando-se como inimigo da Cruz. Esses “inimigos” vivem para o mundo, buscam a glória terrena. É claro, há outros que vivem neste mundo como viajantes, passantes: seu destino é o Céu! É bom poder dizer: nós somos os filhos de Deus que estamos indo para casa, voltando para a casa do Pai. O que fazemos é em busca da glória futura. E ouvimos a voz de Deus. Só quem é filho é capaz de ouvir essa voz. Voz firme e suave, que manda nos dedicarmos à família, a Deus, e às coisas de Deus com todas as nossas forças.

Que a Quaresma nos ajude a vencer os obstáculos interiores e, cada dia mais animados, possamos viver o que os olhos jamais viram e os ouvidos jamais ouviram. O desânimo atrasa nossa vida. Vigiemos para que o desânimo não domine sobre nós e sejamos probos na penitência quaresmal. Não há ninguém que nos obrigue a vivermos de maneira cristã a Quaresma, mas a partir do momento em que recebemos o sinal das cinzas sobre a fronte, nós temos, sim, a obrigação de dizer a Jesus: eu quero e sei que posso fazer esforços para mudar de vida; eu quero e sei que posso fazer da Quaresma um tempo forte de conversão para caminhar na estrada que me leva à ressurreição. Ninguém nos obriga a entrar na fila para comungar do Pão Eucarístico, mas a partir do momento em que nos aproximamos do Altar, alguém nos irá cobrar: a Palavra da Verdade nos cobrará; o Verbo Encarnado, que é o próprio Deus; a Eucaristia, santíssima; o Santíssimo Sacramento do Altar. Tudo nos desafia a frutificar em obras que demonstrem nossa fé aos que pedirem nossas razões…

Quaresma é tempo de luta! Um kairós. Tempo de pelear contra satanás. No século VI, viveu um monge chamado Doroteu de Gaza, que escreveu algumas instruções, a título de treinamento espiritual, voltadas aos outros monges. Ele diz: o demônio semeia a suspeita no coração para dividir. A fenomenologia é inversa à da Encarnação do Verbo: o demônio busca dividir – por meio da suspeita – para confundir depois. Nem sempre o demônio tenta com uma mentira. Na base de uma tentação pode existir uma verdade que, no entanto, é vivida no mau espírito. Fugindo das tentações, reverenciemos os milagres realizados por Deus em nossa vida. Vivamos este tempo com o sentimento de que é muito bom ter fé, é muito bom ser católico, é muito bom fazer parte de um reino de ressuscitados.

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