Do coração aberto de Cristo

No dia 24 de junho, a Igreja celebra a festa solene do Sagrado Coração de Jesus. Tão grande é seu significado, que a festa bonita do nascimento de São João Batista, normalmente celebrada nesse dia 24, cede-lhe o lugar. Sendo o Batista o humilde Precursor de Jesus, seu nascimento, neste caso, é celebrado um dia antes.

A festa do Sagrado Coração foi introduzida na Igreja como devoção privada a partir de 1672, pelo sacerdote francês São João Eudes. Logo em seguida, em 1675, Santa Margarida Maria, também na França, contribuiu muito para a difusão da devoção ao Coração de Cristo em toda a Igreja. Em 1856, o Papa Pio IX estendeu a comemoração à Liturgia de toda a Igreja Latina. Hoje, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus é conhecida nas paróquias do mundo inteiro.

Entendemos facilmente o simbolismo do coração na linguagem de hoje. O coração é a sede do amor, das emoções, dos sentimentos, das paixões, muitas vezes contraposta à razão, identificada com a inteligência, a lucidez, o cálculo, a sensatez, a atitude fria e desvestida de sentimentos. Será que é nisso mesmo que a Igreja pensa, ao falar do Sagrado Coração de Jesus?

O simbolismo do coração é muito rico e aparece constantemente na Bíblia, desde o Antigo Testamento. O primeiro mandamento da Lei de Deus já ordena “amar a Deus de todo coração” (cf. Dt 6,5), indicando inteireza e plenitude no amor. Não se pode amar a Deus “com o coração dividido”. Samuel exorta o povo a abandonar os ídolos e a “voltar, de todo coração, para o Senhor” (cf. 1Sm 7,3). O coração indica escolha, decisão, vontade. E Salomão pede que Deus lhe dê “um coração que saiba escutar, capaz de governar e de discernir entre o bem e o mal” (cf. 1Rs 3,9). O coração, neste caso, aparece como sede das virtudes necessárias ao bom governo.

O coração também representa a sede das decisões mais pessoais e íntimas e indica a pessoa inteira. Muitas vezes, o conceito “coração” poderia ser usado em lugar dos pronomes eu, me, vós, eles: “Os preceitos do Senhor (…) alegram o coração” (Sl 19,8). “Meu coração, ó Deus, está firme” (Sl 57,7). “Não endureçais o vosso coração” (Sl 95,8). “Meu coração está firme, ó Deus” (Sl 57,7). “O Senhor sonda os corações” (Pv 21,2). “Dá-me, filho meu, o teu coração” (Pv 23,26). “O seu coração está longe de mim” (Is 29,13).

Mas o coração também pode ser a sede da maldade. O coração de Salomão se deixou desviar para a idolatria, “e já não pertencia mais inteiramente ao Senhor, como o coração de seu pai Davi” (1Rs 11,4). “Diz o insensato em seu coração: ‘Deus não existe’” (Sl 53,1). Isaías adverte para o afastamento de Deus: “Seu coração está longe de mim” (Is 29,13). E Jeremias exorta Jerusalém a “lavar a malícia do seu coração” (Jr 4,14). Ezequiel chama o povo à conversão e a mudar seu “coração de pedra” (cf. Ez 11,19). Deus promete tirar o “coração de pedra” do seu povo, para lhe dar “um novo coração de carne” (cf. Ez 36,26). O profeta Joel chama à conversão verdadeira e não apenas aparente: “Rasgai o vosso coração e não as vossas vestes” (cf. Jl 2,13). O profeta Zacarias recorda as infidelidades, desobediências e a dureza do coração do povo, chamando-o à conversão: “Tornaram seus corações (duros) como o diamante para não ouvir a lei e as palavras do Senhor” (cf. Zc 7,12). Jesus ensina que o coração pode ser a sede das “más intenções, fornicações, roubos e homicídios” (cf. Mc 7,21).

No Novo Testamento, o simbolismo do coração também é muito abundante e rico. Jesus proclama felizes “os puros de coração”, o que indica a vida íntegra e não pervertida nem corrompida, a retidão, a verdade, a singeleza, a ternura (cf. Mt 5,8). O coração bom é sede do bom tesouro da pessoa (cf. Lc 6,45). É nele também que se faz a experiência do amor de Deus, “derramado em nossos corações” (cf. Rm 5,5). É com o coração que se “crê para a justiça” (cf. Rm 10,10). Com o coração se consegue ver melhor as realidades da fé (cf. Ef 1,18). Enfim, nosso coração também é morada de Cristo e do Espírito Santo (cf. Ef 3,17, 1Pd 3,15).

E, quando olhamos para Jesus crucificado, vemos que do seu coração traspassado e aberto pela lança saiu sangue e água (cf. Jo 19,33-34). É o sangue do amor infinito do Filho de Deus por nós e a água do Batismo regenerador, da vida nova segundo Deus, do Espírito Santo e da misericórdia sem limites por nós. O coração humano de Cristo é a imagem do coração de Deus, que se revelou a nós. É o tesouro infinito do amor salvador de Deus por nós, que não nos ama de maneira fria e distante, mas como um pai, mãe, irmão, amigo e fonte inexaurível de todo o bem.

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