A mensagem de Francisco

O Papa é sempre o sucessor de Pedro, a quem Cristo disse: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. As portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18). É reconfortante saber que, seja quem estiver na terra à frente da Igreja, Deus sempre o protege e o confirma na fé.

Como católicos, devemos pedir a Deus que renove a nossa fé nesse mistério – maravilhoso mistério – do Papado. E uma manifestação dessa fé é procurar compreender bem o que cada Papa, em sua respectiva época, nos ensina e orienta.

Não é uma empreitada fácil. Às vezes, temos contato com palavras do Papa que foram tiradas do contexto ou mesmo distorcidas. Em outras vezes, somos nós mesmos que temos dificuldades de entendê-las. Nem sempre o nosso coração é terra fértil, apta a produzir os muitos frutos que Deus espera.

Na tarefa de discernir o que o Papa Francisco tem nos dito ao longo dos quase oito anos de Pontificado, podem nos ajudar umas palavras do biógrafo do Papa, Austen Ivereigh, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. No fim do ano passado, Francisco e Austen Ivereigh publicaram juntos o livro “Vamos sonhar juntos: O caminho para um futuro melhor”.

Questionado sobre a pandemia e o atual Pontificado, Austen Ivereigh respondeu: “A Igreja mudou durante a crise, que acelerou o que já era claro: que a fé já não se transmite pela lei, pela cultura, pela instituição e pela família, mas pelo testemunho e pela experiência. Entender essa mudança é a chave do Pontificado de Francisco”.

Qual é exatamente essa mudança, que Austen Ivereigh qualifica nada mais nada menos que a chave do atual Pontificado? Francisco quer resgatar a centralidade da relação pessoal com Deus frente ao que se poderia chamar, de uma forma ampla, de institucional: lei, cultura, família, instituições. Não que isso seja agora desimportante, mas sua relevância está precisamente em favorecer o testemunho vivo e a experiência pessoal com Cristo Ressuscitado.

Francisco quer evitar o perigo de transformar a vida cristã numa espécie de batalha por determinadas estruturas humanas, mas que acaba por relegar o principal – que é a relação pessoal com Deus. Presente em todos os ensinamentos de Francisco, essa proposta é muito clara, por exemplo, na recente carta apostólica Patris corde, sobre São José. 

A promoção de leis justas faz parte de uma cidadania responsável, e é preciso estimular a que muitas pessoas de boa vontade, católicas ou não, participem ativamente do debate público. No entanto, cada coisa deve estar em seu âmbito. A fé não é assegurada por uma lei boa, assim como uma lei má é por si só incapaz de destruir a fé.

Outro exemplo. Ciente da importância de formar bem a juventude, a Igreja promoveu, ao longo dos séculos, muitas escolas católicas. Trata-se de um trabalho louvável, que produziu e continua a produzir muitos frutos para a Igreja, para as famílias, para toda a sociedade. O esforço por manter as escolas católicas continua sendo necessário. Mas não podemos nos iludir achando que a promoção dessas instituições resolverá por si só a tarefa de preservar e transmitir a fé.

Francisco quer destacar o que é verdadeiramente essencial no Cristianismo. Por mais vistosas que sejam e despertem especiais saudades em alguns, não são as estruturas humanas que asseguram a fé. Não se deve atribuir um caráter de fim ao que é meio. Não se deve tornar absoluto o que é uma solução histórica. A fé deve informar a família, a cultura, as leis e as instituições. Para isso, porém, ela precisa ser antes, de fato, fé vivida e praticada – e não mera cultura, costume ou ideologia.

A proposta de Francisco não significa nenhuma ruptura. A Igreja é una, rezamos no Credo. Essa plena continuidade entre os sucessores de Pedro pode ser constatada lendo a primeira encíclica de Bento XVI (Deus caritas est), na qual se diz que, no início da vida cristã “não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte”.

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