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A Palavra de Deus que conduz a Cristo

Neste mês de setembro, a Igreja celebra, em todo o Brasil, o Mês da Bíblia. Instituída pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em 1985, depois de algumas experiências locais bem-sucedidas, a iniciativa nasceu em sintonia com o espírito do Concílio Vaticano II, que incentivou de modo particular o acesso dos fiéis às Sagradas Escrituras. A escolha do mês está ligada à memória de São Jerônimo, celebrada no dia 30 de setembro. O santo, um dos grandes estudiosos das Escrituras na história da Igreja, dedicou boa parte de sua vida à tradução e ao estudo dos textos sagrados, trabalho que daria origem à Vulgata, a célebre tradução latina da Bíblia.

A celebração do Mês da Bíblia oferece uma boa ocasião para recordar alguns pontos fundamentais sobre as Sagradas Escrituras. Afinal, embora a Bíblia esteja presente na liturgia, nem sempre nos damos conta de toda a sua importância.

A Bíblia não é apenas um livro entre tantos outros. Nela, encontramos um dos modos pelos quais Deus quis transmitir aos homens a sua Revelação. Como ensina o Concílio Vaticano II na Dei Verbum, Deus quis revelar-se e tornar conhecido o mistério de sua vontade, para convidar os homens à comunhão consigo. Essa Revelação nos foi transmitida pela Sagrada Escritura e pela Sagrada Tradição, intimamente unidas e constituindo um único depósito da Palavra de Deus confiado à Igreja.

Assim, ao abrirmos as páginas da Bíblia, não nos deparamos simplesmente com a recordação de acontecimentos religiosos do passado. Encontramos a Palavra de Deus consignada por escrito sob a inspiração do Espírito Santo. Deus é o autor das Escrituras, servindo-se de homens que escreveram segundo suas capacidades e linguagem. Por essa razão, a Igreja professa que os livros da Sagrada Escritura ensinam, com certeza, fielmente e sem erro, a verdade que Deus quis consignar neles para a nossa salvação.

Isso não significa, contudo, que possamos interpretar cada passagem isoladamente ou esperar dos textos bíblicos o gênero de precisão próprio de um manual científico moderno. A Escritura possui diferentes gêneros literários, e sua compreensão exige atenção à intenção dos autores sagrados, ao contexto e à unidade de toda a Bíblia. Sobretudo, sua interpretação não pode ser separada da fé da Igreja. É na comunidade que recebeu dos Apóstolos o depósito da fé que a Palavra foi preservada, proclamada e transmitida ao longo dos séculos. Como ensina a Dei Verbum, compete ao Magistério da Igreja interpretar autenticamente a Palavra de Deus, escrita ou transmitida.

Essa relação entre Escritura, Tradição e Igreja impede tratar a Bíblia como um texto qualquer, sujeito apenas às opiniões particulares de cada leitor. A Sagrada Escritura foi dada à Igreja para ser lida, celebrada, meditada e vivida. Seu objetivo não é simplesmente aumentar nosso conhecimento, mas conduzir-nos ao encontro com Cristo. São Jerônimo, por isso, podia afirmar: “Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo”.

Além disso, ler a Bíblia deve tornar-se também uma forma de oração. Uma das práticas mais antigas da espiritualidade cristã é a lectio divina, que convida o fiel a ler atentamente um trecho da Escritura, compreender aquilo que Deus lhe diz, responder-Lhe por meio da oração e permanecer diante Dele na contemplação. É um caminho acessível a todo cristão que deseja crescer na amizade com Deus. Como recorda o Catecismo, “a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada de oração, para que se estabeleça o diálogo entre Deus e o homem”.

Que este Mês da Bíblia não passe despercebido. Que seja uma oportunidade para cada católico abrir novamente as Sagradas Escrituras, retomando um livro deixado de lado ou estabelecendo diariamente alguns minutos para sua leitura e oração. Que as famílias façam também da Bíblia uma presença habitual em seus lares. A Palavra de Deus não foi confiada à Igreja para permanecer fechada nas estantes, mas para ser escutada e acolhida. Aproximemo-nos dela com fé e humildade, certos de que, ao escutarmos a Palavra, somos conduzidos Àquele que é a própria Palavra feita carne: Jesus Cristo.

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