O que estamos realmente construindo na era da inteligência artificial? Em meio a uma revolução digital, podemos construir uma “nova Torre de Babel”, alicerçada no egoísmo e na maximização do lucro, ou uma “cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos”, em que todos participam. Esse é o principal alerta do Papa Leão XIV em sua primeira encíclica, Magnifica humanitas (“Magnífica humanidade”, em português).
Se cada época tem os seus desafios, na nossa se enxergam enormes ameaças à dignidade humana: a tecnologia é desenvolvida por um pequeno grupo de empresas poderosas; a guerra é novamente um recurso fácil e acessível para alcançar objetivos estratégicos, com um mercado de armas controlado por meia dúzia de “tiranos”. Há, também, um risco generalizado de se desumanizar os mais fracos na pobreza extrema, na migração forçada, em novas formas de escravidão e trabalho indigno, na comunicação agressiva e na desinformação, na exposição de crianças e adolescentes, nos abusos, na violência contra a mulher, na promoção do aborto e da eutanásia.
Destinada a todos, a encíclica inicia um diálogo sobre o fato de a tecnologia não poder ser desenvolvida em oposição à vida humana, mas somente a seu favor. “As novas tecnologias abrem um horizonte alargado em direções que, embora imagináveis, não podemos ainda antever plenamente. Isso torna mais complexo avaliar o seu impacto, bem como os efeitos a longo prazo sobre a dignidade das pessoas e o bem comum”, afirma o Santo Padre.
Estamos diante da mesma encruzilhada de sempre, mas potencializada pela tecnologia: de um lado, o amor exclusivo a si mesmo e ao próprio ego; do outro, o amor de Deus e ao próximo. “A inteligência criativa do ser humano é um dom que pode aliviar sofrimentos e abrir novas possibilidades, mas deve permanecer orientada ao bem comum, à justiça, ao cuidado dos mais frágeis e da criação”, diz o Pontífice. “A verdadeira alternativa não é entre entusiasmo ou medo, mas entre duas formas de construção: um progresso que serve à pessoa e aos povos ou um progresso que os submete às lógicas de poder.”
Sempre atenta às “coisas novas” de cada tempo histórico, a Igreja articula seu pensamento social, em particular, desde a encíclica Rerum Novarum (Das Coisas Novas), publicada pelo Papa Leão XIII em 1891. Agora, em Magnifica humanitas, 135 anos depois, o Papa Leão XIV – cujo nome demonstra uma atenção renovada às questões sociais – volta a fazer uma leitura dos problemas do mundo embasada na Doutrina Social da Igreja. São princípios elementares: bem comum, destinação universal dos bens, subsidiariedade, solidariedade e justiça social.
Ao retomar os fundamentos do ensinamento social da Igreja, Leão XIV entra em diálogo com a realidade do mundo e busca ser um ponto de luz. Mais especificamente sobre a inteligência artificial, o Papa não faz uma análise exaustiva sobre o tema, mas exorta a uma maior responsabilidade por parte daqueles que controlam as tecnologias e das autoridades políticas.
Leão XIV pede transparência nos processos criativos, maior inclusão e representação das comunidades no desenvolvimento e na linguagem, maior controle e regulação por parte dos governos, maior educação frente às mídias, principalmente voltada aos mais jovens. Ele faz um convite “a procurar caminhos concretos para fazer crescer a equidade, a participação e o cuidado da criação”. Somente o ser humano é um ser criativo, ensina o Pontífice, pois, de certa forma, “por meio de nossas obras, prolongamos a do Criador”.




