Logo do Jornal O São Paulo Logo do Jornal O São Paulo

Democracia em risco

Na última semana, o Brasil se chocou com o relatório de mais de 200 páginas da Polícia Federal (PF) que revela a íntima relação que o banqueiro Daniel Vorcaro possuía com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Entre os elementos ali contidos, aparecem pedidos de Vorcaro por informações sobre investigações, questionamentos sobre quando deveria deixar o País para evitar a prisão e demonstrações de conhecimento antecipado de ações de fiscalização, além de tentativas de intervenção junto a autori-dades (incluindo referências a Paulo Gonet, da Procuradoria-Geral da República – PGR, e Andrei Rodrigues, da PF).

O caso provocou um escândalo em toda a população brasileira. Nele, foi escancarada uma das simbioses mais problemáticas da história da democracia brasileira: o Judiciário, a Procuradoria-Geral da República e diversos políticos trabalhando em conluio para favorecer a si mesmos, em detrimento da sociedade. Aqueles que deveriam zelar pela ordem jurídica e pela lei mostraram-se lobistas e oligarcas, buscando vantagens pessoais, seja por meio de ganhos financeiros, seja por poder e influência.

O fato, juntamente com o atual período eleitoral em que o País se encontra, dá ocasião para refletir sobre o papel da justiça e dos governantes. A tradição da Igreja sempre afirmou que aqueles que governam uma nação devem buscar em primeiro lugar o bem comum, isto é, o bem integral das pessoas e famílias que nela residem. Em outras palavras, a principal responsabilidade dos líderes é o serviço, pois somente por meio dele é possível fornecer as condições para que os cidadãos busquem o bem.

Esse serviço, no entanto, precisa ser pautado em princípios e valores para ser realizado com retidão. O primeiro deles é a dignidade da pessoa humana: todo ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, deve ter sua vida, sua liberdade e os meios necessários ao seu desenvolvimento respeitados. A partir desse princípio, devem também os governantes promover o respeito à lei moral, à paz e à concórdia entre todos.

Contudo, para que o governante exerça efetivamente sua autoridade em favor do bem comum, convém seguir o conselho dado pelo Papa Bento XVI em sua visita pastoral a Milão, em 2012: citando Santo Ambrósio, o Santo Padre pede que aqueles que colaboram com o governo e a administração pública se façam amar. “‘Aquilo que o amor faz, o medo jamais poderá realizá-lo. Nada é mais útil do que fazer-se amar’. Por outro lado, a razão que […] move e estimula a presença diligente e laboriosa das autoridades nos vários âmbitos da vida pública deve ser a vontade de dedicarem-se ao bem dos cidadãos e, por conseguinte, ser uma expressão clara e um sinal evidente de amor. Assim, a política é profundamente enobrecida, tornando-se uma forma elevada de caridade”.

Infelizmente, esses ideais tão nobres parecem ter sido esquecidos nos últimos anos. Hoje, basta acompanhar as manchetes dos jornais, das revistas e dos noticiários televisivos para encontrar o exato oposto: em vez da defesa da pessoa humana, o que se vê são políticos tentando relativizar a vida; ao contrário da justiça, observa-se juízes – como o próprio Alexandre de Moraes – agirem como autocratas, à revelia de qualquer lei; no lugar da paz e da concórdia, vivencia-se uma sociedade cada vez mais dividida pela polarização alimentada pela perseguição.

Há, nisso tudo, exemplos reais e tangíveis: ao mesmo tempo em que Débora dos Santos é condenada a 14 anos pelos atos de 8 de janeiro – conhecidos pela pichação com batom na estátua “A Justiça” –, o ministro Alexandre de Moraes determina a investigação de seu colega de tribunal, André Mendonça, após este ter adotado medidas relacionadas às apurações envolvendo o Banco Master. Analogamente, em vez de se investigar as acusações do uso de bens públicos para fins privados, caçam-se os jornalistas que em suas publicações denunciam esses abusos, chegando até mesmo ao limite de perseguir suas fontes, algo vedado pela Constituição.

É nítido, portanto, que nós, como sociedade, devamos mudar a forma como fazemos política e cobramos nossos representantes. A falta de coerência, integridade e justiça de quem nos governa e nos julga parece ter chegado ao limite. Que nestas eleições Deus ilumi-ne a cada um dos brasileiros para que possamos discernir com serenidade os candidatos retos, que visem ao bem comum e ajudem a desenvolver o Brasil.

Deixe um comentário