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Ecologia integral

A celebração do Dia da Árvore, estipulada no Brasil para o próximo dia 21, antevéspera da primavera, nos dá a ocasião de relembrar o ensinamento católico sobre o meio ambiente – um dos grandes temas controversos de nossos dias, frequentemente objeto de posições extremadas.

Não falta quem invoque, por exemplo, a narrativa bíblica da criação do homem e o comando do “enchei a terra e submetei-a” (Gn 1,28), para pretender justificar uma exploração irrefreada do meio ambiente: nós teríamos sobre a natureza o mesmo arbítrio de vida e morte que o dono tem sobre seu escravo. Como adverte o Papa Francisco, no entanto, “esta não é uma interpretação correta da Bíblia, como a entende a Igreja” (Laudato si’, 67). Não ao homem, com efeito, mas “ao Senhor pertence a terra e tudo o que ela contém” (Sl 24,1; cf. Dt 10,14). Deus nos manda, por isso, que nos consideremos usuários dos bens, e não seus proprietários perpétuos: “Nenhuma terra será vendida definitivamente, porque a terra Me pertence, e vós sois apenas estrangeiros e meus hóspedes” (Lv 25,23). E o repouso semanal foi instituído não só em favor do homem, mas também “para que descansem o teu boi e o teu jumento” (Ex 23,12).

Embora seja certo, portanto, que no mundo visível apenas o homem foi criado “à imagem e semelhança” de Deus (cf. Gn 1,26), não é menos verdade que cada criatura é objeto da ternura do Pai que lhe atribui um lugar no mundo. E, como nos lembra São Tomás de Aquino, esta multiplicidade e variedade da criação nos ensina, primeiro, que a bondade divina é tão elevada que não poderia ser convenientemente representada numa única criatura; depois, que nenhuma criatura (nem sequer o homem) basta-se a si mesma (cf. Laudato si’, 77, 86).

Oposto a este antropocentrismo despótico, porém, existe também um ambientalismo radical, que erige a fundamento do universo já não o homem e suas necessidades, mas puramente a natureza.

Criticar o ambientalismo extremado (note-se bem!) não significa fechar os olhos à realidade: é inegável – e a Igreja reconhece – que “o ambiente natural está cheio de chagas causadas pelo nosso comportamento irresponsável” (Laudato si’, 6). Trata-se apenas de enxergar que, por trás destas chagas à nossa terra, está sempre um desequilíbrio em nossas relações – primeiro com Deus e depois com os demais homens e com o ambiente. Não por outro motivo é que, consumado o primeiro fratricídio, recebeu Caim a simbólica imprecação divina: “Eis que a voz do sangue do teu irmão clama por mim desde a terra. De agora em diante, serás maldito e expulso da terra, que abriu sua boca para beber de tua mão o sangue do teu irmão” (Gn 4,10-11).

Nós, cristãos, “sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto” (Rm 8,22) – e, mais que isso, sabemos que todas essas dores decorrem da “ideia de que não existem verdades indiscutíveis a guiar a nossa vida, pelo que a liberdade humana não tem limites” (Laudato si’, 6).

Como dizia enfaticamente o Papa Emérito Bento XVI, “para preservar a natureza não basta intervir com incentivos ou punições econômicas, nem é suficiente uma instrução adequada. Trata-se de instrumentos importantes, mas o problema decisivo é a solidez moral da sociedade em geral. (…) O livro da natureza é uno e indivisível, tanto sobre a vertente do ambiente como sobre a vertente da vida, da sexualidade, do matrimônio, da família, das relações sociais, numa palavra, do desenvolvimento humano integral. Os deveres que temos para com o ambiente estão ligados com os deveres que temos para com a pessoa considerada em si mesma e em relação com os outros; não se podem exigir uns e espezinhar os outros. Esta é uma grave antinomia da mentalidade e do costume atual, que avilta a pessoa, transtorna o ambiente e prejudica a sociedade” (Caritas in veritate, 51). Protejamos e defendamos, sim, a criação – mas a criação inteira!

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