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Eutanásia: quando a ‘compaixão’ desumaniza 

Neste ano, o tema da eutanásia voltou a ocupar espaço nas manchetes no Brasil e no mundo. Em março, o planeta se chocou com o caso da espanhola Noelia Castillo Ramos, de 25 anos, que, após uma lamentável sequência de eventos – alguns deles causados pelo próprio governo –, recebeu permissão legal para realizar o suicídio assistido. No Brasil, em abril, também ganhou repercussão o caso da professora Célia Cassiano que, após ser diagnosticada com uma doença neurodegenerativa, foi à Suíça para realizar a eutanásia com apoio médico. Casos como esses, cada vez mais frequentes, levantam questões quanto à visão da Igreja e ao papel do Estado: deveria a sociedade rever seus fundamentos e permitir que cada indivíduo encerre a própria vida quando lhe parecer conveniente? 

Antes de iniciar esta discussão, vale ressaltar a compaixão para com todos que passam por provações profundas. Sem dúvida alguma, ninguém deseja para si um futuro em que considere o suicídio assistido. É preciso reconhecer que aqueles que veem na eutanásia uma “saída” o fazem porque enfrentam intenso sofrimento e não encontram, naquele momento, outra forma de superá-lo. A eles cabe, antes de qualquer julgamento, a compreensão de sua condição e a caridade diante de suas dificuldades. Sobre todos que passam por situações semelhantes, São Paulo nos lembra: “Ajudai-vos uns aos outros a carregar os vossos fardos, e deste modo cumprireis a Lei de Cristo” (Gl 6,2). 

Isto posto, não há verdadeira compaixão em consentir no desespero de alguém. Concordar ou incentivar que um indivíduo tire a própria vida é, objetivamente, um ato gravíssimo, equiparável a um homicídio, ainda que a responsabilidade moral subjetiva possa ser atenuada pelas condições de sofrimento. Ao se consentir tal prática, corre-se o risco de obscurecer o valor mais fundamental para a construção de qualquer civilização: a dignidade da pessoa humana. Cada pessoa possui uma dignidade ontológica infinita, independentemente de qualquer circunstância. Doenças, traumas ou limitações não são capazes de alterar essa realidade, pois ela pertence à própria estrutura do ser. Essa verdade, acessível pela lei natural, é confirmada desde o princípio, quando Deus cria o ser humano “à sua imagem e semelhança” (Gn 1,26). 

Quando a sociedade passa a ignorar esse fundamento e a relativizar o valor da vida, a dignidade humana torna-se dependente de avaliações arbitrárias e mutáveis. Isso gera consequências graves e já conhecidas pela história. No documento Dignitas infinita, a Igreja alerta que a história “atesta que o exercício da liberdade contra a lei do amor revelada pelo Evangelho pode alcançar picos incalculáveis de maldade provocada aos outros. Quando isso ocorre, encontra-se diante de pessoas que parecem ter perdido qualquer traço de humanidade” (DI 7). E, diante de um cenário que busca harmonizar a ideia de “leis de morte digna” com o respeito ao valor intrínseco da pessoa, o Magistério reafirma com clareza: “O sofrimento não faz perder ao doente aquela dignidade que lhe é própria […] mas pode tornar-se ocasião para reforçar os vínculos […] e tomar maior consciência da preciosidade de cada pessoa” (DI 51). 

Dessa forma, concordar com a eutanásia equivale a admitir a eliminação deliberada de um inocente. Em alguns casos, tal posição é influenciada por uma mentalidade utilitarista, marcada pela aversão ao sofrimento e pela idolatria do conforto. Assim, até mesmo o valor fundamental da vida pode ser relativizado, desde que o “problema” seja resolvido com maior facilidade. 

Ser cristão, contudo, não é defender o que é mais conveniente, mas o que é correto. Neste tempo em que ideologias atentam contra a vida, somos chamados a acolher e fortalecer aqueles que sofrem e, ao mesmo tempo, a ser como “a voz que clama no deserto”, opondo-nos a uma cultura que frequentemente disfarça injustiças em virtudes. Firmes na fé e na verdade, mantenhamo-nos sempre corajosos ante as dificuldades e perseverantes na defesa da verdade. 

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