Confira nossa versão impressa

O celibato, um motor de evangelização

Um dos pontos da religião católica menos compreendidos no mundo é o celibato de nossos pastores: faz sentido, afinal, continuar pedindo aos padres e bispos, em pleno século XXI, que renunciem ao Matrimônio e à constituição de uma família própria? Que relação haveria entre o celibato sacerdotal e a fecundidade apostólica e espiritual dos sacerdotes?

O celibato, ao contrário de alguns boatos difamatórios e sem fundamento histórico, não é uma “invenção medieval” destinada a aumentar o poder econômico e político da Igreja: é, sim, uma instituição da era apostólica, alicerçada em razões pastorais e teológicas. É, antes de tudo, uma exigência e aspiração de almas que, amando a Deus sobre todas as coisas, a Ele se consagram e com a Igreja se desposam.

No plano pastoral, o celibato assegura aos padres, por um lado, a ausência de deveres conjugais ou familiares que lhes pudessem dificultar a disposição integral ao serviço apostólico. Um padre celibatário está disponível a mudar sua residência para qualquer lugar e a qualquer tempo, conforme as necessidades do povo de Deus. Pode, também, se deslocar imediatamente para atender à Confissão dos moribundos a qualquer hora do dia ou da noite. O padre celibatário pode assim dizer, como o salmista: “O Senhor é a minha parte de herança e meu cálice” (Sl 15,5), e imitar os primeiros apóstolos, que, ao encontrar Jesus, “deixaram tudo e O seguiram” (Lc 5,11).

Por outro lado, o celibato dá credibilidade ao padre que se apresenta aos fiéis como pastor de sua alma – afinal, se (como vejo!) o padre se entregou todo inteiro a Deus, então sei também que ele se entregará todo inteiro ao cuidado de minha alma. Também por esse motivo escrevia o Venerável Arcebispo Fulton Sheen, em “O sacerdote não se pertence”, que “nenhuma convicção profunda nasce no incrédulo até ver as mãos feridas e o coração aflito do sacerdote que é vítima com Cristo. O sacerdote mortificado, o sacerdote desapegado do mundo — estes inspiram, edificam e cristificam as almas”. Como São Paulo, o padre celibatário faz-se tudo para todos, a fim de salvar a todos (cf. 1Cor 9,22).

É importante, no entanto, entender que o celibato sacerdotal não é de modo algum um demérito ao Matrimônio. Pelo contrário: o Matrimônio, tanto quanto o celibato observado pelo ministro ordenado, foi instituído por Nosso Senhor como um sacramento que implica um dom total de si – e, por isso mesmo, porque não pode haver dois dons totais de uma única pessoa, é que sua concomitância não é ideal.

Teologicamente falando, dizia o Papa São João Paulo II que o sacramento da Ordem “configura o sacerdote a Cristo Jesus, Cabeça e Esposo da Igreja”, a qual, “como Esposa de Cristo, quer ser amada pelo sacerdote do modo total e exclusivo com que Jesus Cristo Cabeça e Esposo a amou” (exortação apostólica Pastores dabo vobis, 29).

E, se sua condição sacerdotal o torna apto a celebrar o sacratíssimo mistério da Eucaristia, no qual Jesus Cristo se entrega a nós todo inteiro, em corpo e alma, também o ministro deste elevadíssimo sacramento deve estar disposto a uma entrega completa de si. Por isso é que, mesmo nos momentos e nas regiões em que admitiu a ordenação de homens casados, a Igreja antiga exigiu a continência sexual dentro do Matrimônio.

Tenhamos, pois, a ousadia de acreditar na promessa de Nosso Senhor, segundo a qual “todo aquele que por minha causa deixar (…) mulher, filhos, terras ou casa receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna”, e lhe respondamos com confiança: “Senhor, eis que deixamos tudo para te seguir!” (Mt 19,27).

Colunas relacionadas

Comentários

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Compartilhe!

Últimas Notícias

Capela do Hospital Municipal Infantil Menino Jesus: 80 anos de história

Na série de reportagens sobre as capelas católicas em unidades hospitalares da capital paulista, o destaque de...

Cátedra de Cultura Judaica da PUC-SP comemora dez anos

O evento transmitido pela internet nesta sexta-feira, 23, marcou as comemorações dos dez anos da Cátedra de...

São João Paulo II: um Santo e poeta da Igreja

Dando sequência a série especial que rememora santos poetas da Igreja ao longo da história, O SÃO...

Declaração de Consenso de Genebra: avanço na luta contra o aborto

Brasil é um dos 32 países que assinam o documento que reforça a autonomia dos país na proteção da vida dos nascituros

Relatório da Caritas SP mostra os impactos da pandemia em crianças refugiadas

A equipe de Proteção do Centro de Referência para Refugiados da Caritas Arquidiocesana de São Paulo (CASP) produziu um relatório sobre os...

Newsletter