Oração

Falar de oração – uma das tradicionais obras quaresmais – ao homem moderno pode aparentar, à primeira vista, ser como vender guarda-chuvas no deserto: “suplicar pelo auxílio divino”, insinua-nos certa herança iluminista, “talvez até fizesse sentido na ignorância dos antigos ou dos medievais, mas, ao homem que dominou a viagem espacial e a manipulação de seu código genético, que falta pode ainda fazer se colocar de joelhos e falar consigo mesmo?” Que pode ainda a bimilenar Igreja Católica oferecer ao homem cibernético? 

Por um lado, ela reconhece, admirada, o mérito dessas “numerosas investigações científicas, que enriqueceram magnificamente nossos conhecimentos sobre a idade e a dimensão do cosmo, a evolução dos seres vivos, [e] o aparecimento do homem” (Catecismo, n. 283) – mas ao mesmo tempo adverte, em bom rigor de método, que existe “uma questão de outra ordem, que ultrapassa o domínio próprio das ciências naturais. Porque não se trata apenas de saber quando e como surgiu materialmente o cosmos, nem quando é que apareceu o homem; mas, sobretudo, de descobrir qual o sentido de tal origem” (Idem, n. 284). Como já dizia o Vaticano II, o coração do homem continua, “hoje como ontem”, preocupado pelos mesmos enigmas: “que é o homem? qual o sentido e a finalidade da vida? (…) donde provém o sofrimento, e para que serve? qual o caminho para alcançar a felicidade verdadeira? (…) finalmente, que mistério último e inefável envolve a nossa existência, do qual vimos e para onde vamos?” (Nostra Aetate, n. 1).

Mas que relação tem tudo isso com a oração? Ora, essa sede de infinito, essa saudade de eternidade – na famosa frase de Mozart, essa aspiração ilimitada de possuir tudo aquilo que é gut, ächt und schön (“bom, autêntico e bonito”) –; em suma, este desejo de Deus é justamente o que leva o homem de todas as épocas e culturas à oração, nas mais diversas manifestações religiosas (cf. Bento XVI, Audiência Geral de 11/05/2011; Catecismo, n. 2566).

São João da Cruz, um dos grandes mestres da oração contemplativa, dizia que nós, seres humanos, temos em nosso íntimo “profundas cavernas de sentido”: nossas faculdades do intelecto, da vontade e dos sentimentos têm uma ânsia insaciável pela Verdade, pelo Bem e pela Beleza absolutas. Tragicamente, no entanto, a maioria de nós passa a vida tentando lidar com esta questão de duas formas: ou bem tentamos preencher essas cavernas infinitas com uma sucessão infindável de bens finitos (mergulhando sempre mais num ciclo vicioso de insatisfação desespero, como naquela música Hurt de Johnny Cash), ou tentamos “tapar” as cavernas com os tapumes improvisados das distrações do mundo, pretendendo ignorar o elefante branco no meio da sala (como naquelas peças publicitárias que o ateu Richard Dawkins fez circular nos ônibus de Londres, “Deus provavelmente não existe, então só vá e curta a vida”).

Nessa Quaresma, tenhamos então a coragem de voltar a Deus, de deixar-nos reconciliar com Ele (cf. 2Cor 5,20), por meio do diálogo íntimo da oração – sincera, humilde e frequente. “Só no Deus que se revela encontra pleno cumprimento a busca do homem. A oração, que é a abertura e elevação do coração a Deus, torna-se assim relação pessoal com Ele” (Bento XVI, cit.).

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Wilson Lords
Wilson Lords
11 meses atrás

Linda reflexão de algo que tanto amo: orar, rezando ao Senhor da vida, com uma prece em forma de devoção!