Os rumos da quarentena

É impossível, atualmente, negar a necessidade do distanciamento social diante da COVID-19. Não se trata de uma ação inevitável, ainda sem alternativas viáveis. Mesmo países que, sem impor quarentenas, estão tendo sucesso no combate à pandemia, como o Uruguai, contam com distanciamento social adequado, seja pelo compromisso voluntário da população, seja por testagem em massa e recolhimento dos infectados.

Apesar disso, a cidade de São Paulo – como outros lugares do País – vive um paradoxo: enquanto aumenta o número de mortos pela COVID-19, diminuem os índices de isolamento social da população, que já estão em patamares bem abaixo dos recomendados. As medidas adotadas pela Prefeitura, em grande parte baseadas na redução da mobilidade urbana, têm tido resultados decepcionantes. Tudo indica que a maior cidade do Brasil se encaminha para um lockdown ou uma crise do sistema de saúde com número imprevisível de mortes, apesar das muitas estimativas, e um caos social tão danoso para a população e a economia quanto a própria quarentena. Dois aspectos devem ser considerados aqui. Em primeiro lugar, o pouco sucesso de bloqueios e rodízios indica que não se pode atribuir a falta de isolamento social a uma simples “deseducação” da população, ao individualismo ou à maléfica partidarização da discussão sobre o combate à pandemia. Todos esses fatores existem e têm sua parcela de contribuição, mas muitas pessoas estão se deslocando porque precisam e porque vêm encontrando alternativas para se manter ativas dentro do quadro da quarentena (vide o aumento das entregas de produtos e refeições em residências).

Por outro lado, os estudos já estão mostrando como o adensamento populacional, a precariedade das habitações e as condições socioeconômicas interferem no isolamento social. A segurança da família em quarentena é muito diferente, por exemplo, se ela tem uma casa confortável e seus membros trabalham em sistema de home-office; ou se ela é grande, tem uma casa com poucos cômodos e seus membros trabalham em setores essenciais, que usam diariamente transporte público. Isso para não falar na dura realidade das favelas e das pessoas em situação de rua. O problema, por essas razões, não é adotar ou não o distanciamento social, e sim como fazê-lo de modo eficiente.

Para isso, é fundamental escutar as comunidades e lideranças locais, dialogar com elas, entender as dificuldades reais que enfrentam nesse momento e buscar – junto com elas – as melhores alternativas. As objeções levantadas pela população não devem ser confundidas com o negacionismo ideológico, mas vistas como informações que ajudarão a encontrar formas mais adequadas de praticar o distanciamento social.

O momento exige criatividade, e o conjunto da população é muito mais criativo do que um pequeno grupo de técnicos. Essa criatividade, é importante frisar, deve ser muito responsável. Não se trata de procurar drogas miraculosas ou correr riscos infundados, mas de procurar alternativas no âmbito das necessidades, competências e recursos de cada um.

Para isso, precisamos: (1) da sintonia e abertura do setor público às demandas e sugestões da população, de modo a abraçar propostas viáveis advindas de comunidades e lideranças; (2) de agentes econômicos com responsabilidade social, cientes de que a solidariedade não apenas minimizará os sofrimentos da população, mas também agilizará a retomada econômica.

A Doutrina Social da Igreja estimula essa posição dos órgãos públicos com o princípio da subsidiariedade. Quanto mais o governo, seguindo esse princípio, buscar o protagonismo e a colaboração das pessoas e comunidades, menos sofreremos com a COVID-19.

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