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‘Para que todos tenham vida’

Na primeira semana de outubro, a Igreja no Brasil celebra a Semana Nacional da Vida, instituída pela CNBB em 2005. Promovida de 1º a 7 de outubro, a iniciativa culmina no dia 8, dedicado ao Nascituro, e convida os fiéis a estimular o respeito à vida humana em todas as suas etapas — desde a concepção até seu fim natural —, valorizando a dignidade da pessoa, a família, a maternidade e a paternidade, a infância, os idosos, os enfermos e os mais vulneráveis. É um contraponto anual da Igreja à cultura do descarte tão presente na sociedade atual. 

Meditar sobre o mistério da existência humana é algo cada vez mais essencial nos dias atuais. Em um mundo progressivamente mais secularizado e conectado, tornou-se comum a difusão insistente, tanto nas redes sociais quanto nos meios tradicionais de comunicação, de ideias que relativizam o valor da vida. As justificativas são as mais variadas: o aborto, pois os filhos poderiam sofrer muito com as condições desta presente época; a eutanásia, pois os pais seriam um fardo pesado demais para os filhos sustentarem; a fertilização in vitro, porque todas as pessoas devem ter o direito de ter um filho quando bem entenderem, mesmo à custa de outras vidas. 

Um olhar mais atento é capaz de enxergar o que está por trás da grande maioria das justificativas: a troca da sacralidade da vida pelo conforto pessoal. Em suma, é a vitória do utilitarismo em detrimento da Lei Natural. A despersonalização do ser humano torna o próximo apenas uma peça ou empecilho no caminho do prazer pessoal. Quando essa mentalidade se torna predominante, é justamente o momento em que o mundo fica mais suscetível às barbáries e crimes contra a humanidade. 

Em última análise, é a completa antítese do Calvário e da Cruz de Cristo. Enquanto Nosso Senhor se sacrifica a si mesmo pelo outro, a ideologia antivida sacrifica o outro por si. Nesse sentido, as constantes, frequentes e abundantes defesas propagandeadas a favor do aborto ilustram isso de forma ainda mais patente: até mesmo as palavras utilizadas lembram as de um sacerdote durante a Santa Missa. Enquanto o padre, ao consagrar o pão, diz “isto é o meu corpo que será entregue por vós”, a apologia feminista se utiliza das mesmas palavras — “isto é o meu corpo” — para sacrificar o próprio filho. 

Dito isso, seria um equívoco reduzir a pauta da vida a algo estritamente legislativo, sobre o que deveria ou não ser aprovado pela lei. Por mais que isso seja, de fato, muito importante, há de se reconhecer que muitas vezes os encargos de gerar um novo filho, de cuidar de parentes mais velhos enfermos e a dor de não conseguir conceber após o casamento podem ser altos. Quanto a isso, faz parte da defesa da vida e do dever cristão fazer o que estiver ao alcance para reduzir o fardo e acolher o próximo. 

Nesse sentido, favorecer e promover a criação de creches acessíveis pa-ra mães que precisam trabalhar durante o dia, ajudar instituições hospitalares que tratam doentes por meio de doações e dedicar nosso tempo a dar apoio emocional e psicológico a quem necessita são ações fundamentais e concretas que todos podem fazer para dar corpo ao tema da vida. Pensar nessa matéria não é apenas garantir que alguém se mantenha respirando, mas também assegurar que cada indivíduo viva com dignidade. 

Trabalhar para que essa realidade seja alcançada é, em essência, cumprir o mandamento que Cristo nos dá de nos amarmos uns aos outros. Como Ele mesmo nos diz: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13,35). É a caridade que nos impele e nos move para o cuidado do próximo. E é por meio dela, fortalecida na oração e nos sacramentos, que ajudamos a aliviar a carga de quem necessita, sabendo que é no necessitado que encontramos Jesus. 

Portanto, ao concluirmos a Semana da Vida, renovemos nosso compromisso de cumprir os deveres que a fé cristã nos impõe. Que, a partir dela e com a ajuda da graça, defendamos a vida contra todos os ataques que surgirem, sejam eles provenientes de decisões políticas ou de situações de injustiça social. Movidos pela caridade, sejamos nós Cristo para o próximo da mesma forma que Ele o é para nós.

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