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Sagrado Coração de Jesus

Talvez nosso primeiro reflexo ao ouvir falar em “Sagrado Coração” seja se lembrar daquelas piedosas senhorinhas do Apostolado da Oração, com suas fitas vermelhas e Ave-Marias (e que, aliás, em sua silenciosa oração, são um verdadeiro pilar de sustentação da Igreja!). Esta devoção poderia parecer, nesse sentido, algo “carola” e ultrapassado, inapropriado a um católico moderno.

Nada, porém, estaria mais longe da verdade: pelo contrário, o culto ao Sagrado Coração decorre da própria doutrina católica sobre Jesus, o Verbo Encarnado, e por isso “não deve a sua origem a revelações privadas, nem apareceu de improviso na Igreja” – embora as visões de Santa Margarida Maria Alacoque, sobre as quais o jornal O SÃO PAULO publicou em seu site um artigo, que pode ser lido neste link: https://bityli.com/mHerd – certamente tenham tido a importância de “atrair a consideração dos homens para a contemplação e a veneração do amor misericordioso de Deus para com o gênero humano” (Papa Pio XII, Encíclica Haurietis aquas, HA,52).

Quais verdades de fé, porém, estão por trás do Sagrado Coração? A expressão refere-se, em primeiro lugar, ao culto devido ao coração, ao órgão muscular de Jesus. Com efeito, se na Encarnação o Verbo Eterno “permaneceu o que era (divino), e assumiu o que não era (humano)”, e se Jesus Cristo é “verdadeiro Deus e verdadeiro homem” (cf. Catecismo da Igreja Católica, 469), então aquele corpo que andou pela Palestina, foi pregado na cruz e subiu aos céus está intimamente ligado a Deus, e merece a mesma adoração.

Em segundo lugar, no entanto, e de maneira mais especial, a devoção é dirigida ao Coração de Jesus (e não ao cérebro ou aos olhos, por exemplo), por se tratar do símbolo, por excelência, para o amor. Ao vermos, numa placa, o desenho de uma nuvem escura ou de um avião, logo pensamos em uma tempestade ou em um aeroporto; da mesma forma, um coração aposto à imagem do Cristo nos remete naturalmente a seu amor.

Poderíamos, em terceiro lugar, desdobrar esta realidade num “tríplice amor com que o Divino Redentor ama continuamente o Eterno Pai e todos os homens” (HA,27): o amor divino (próprio das três pessoas da Trindade), o amor infuso (dom sobrenatural de Deus aos homens que se abrem à graça) e o amor sensível (as afeições e ternuras bem humanas que todos nós sentimos, e que moveram também a Jesus).

Que consolo contemplar, na oração pessoal, o fato de que Jesus sentiu verdadeira ternura por mim e por ti: aquele mesmo “carinho” que temos pelos pais ou avós queridos, ou por um amigo “do coração”. Que consolo saber que era em mim e em ti que Ele pensava – não como anônimos, mas como indivíduos! – quando clamou “Vinde a mim vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei” (Mt 11,28), como a imagem que abre os braços sobre a Baía de Guanabara. Que consolo, enfim, vislumbrá-lo a se compadecer da multidão cansada, como ovelhas sem pastor (cf. Mc 6,34); ou a chorar a morte de Lázaro (cf. Jo 11,35); ou a exultar de alegria ao se dar em alimento pela primeira vez, conforme havia ardentemente desejado (cf. Lc 22,15).

Só poderemos nos tornar conformes a Cristo se nos aplicarmos a meditar estas coisas, considerando, na intimidade da oração, o amor (também humano!) que nos tem nosso amável Salvador. E, então, a consequência será natural: cantaremos, como no Adeste Fideles, “Sic nos amantem quis non redamaret?” – “Ao que nos ama desta maneira, como não amar de volta?”

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