No último dia 1o, a Igreja viveu um triste capítulo em sua história. Nessa data, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, grupo criado pelo então Arcebispo Marcel Lefebvre, ordenou quatro novos bispos sem mandato pontifício. Mesmo com pedidos do próprio Santo Padre para que seus membros reconsiderassem e não tomassem tal atitude, o ato foi consumado e transmitido ao mundo todo diretamente de Ecône, Suíça. No dia seguinte, 2, a Santa Sé publicou o decreto de excomunhão de todos os bispos ordenantes e recém-ordenados, conforme manda o direito canônico. Além disso, declarou que todos aqueles que aderirem formalmente à referida instituição incorrem em cisma e nas respectivas sanções canônicas.
Este acontecimento, por mais lamentável que seja, abre-nos ocasião especial para refletirmos sobre a primeira das quatro notas da Igreja: a unidade. Tendo sido fundada por Cristo para que seja “um só rebanho e um só pastor”, uma das missões fundamentais da Igreja é confirmar os fiéis na fé. Quando há um cisma, especialmente pelas justificativas alegadas – de que, após o Concílio Vaticano II, a Igreja estaria “sendo animada por um espírito que destrói a Santa Tradição” –, é gerado nos fiéis escândalo e perplexidade. Ademais, uma nova divisão pode trazer a dúvida a alguns fiéis sobre o que significa realmente dizer que a Igreja é una.
De modo mais imediato, a unidade da Igreja consiste em que todos os fiéis, em todas as partes do mundo e em todos os tempos, creem na mesma fé. Aderem, com sua inteligência e vontade, às idênticas verdades os bispos, sacerdotes, crianças, adultos, brasileiros, japoneses, brancos e negros. Não importa onde estejam, que idioma falem ou quais sejam seus gostos pessoais; todos professam a mesma fé ao recitar o Credo dos Apóstolos. Para assegurar a veracidade dos ensinamentos após sua ascensão, Cristo enviou seu próprio Espírito: “Mas o Paráclito, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará todas as coisas, e vos recordará tudo o que vos tenho dito.” (Jo 14,26).
Todavia, a unidade não se limita apenas à crença nas mesmas verdades. Ser una significa também estar debaixo de uma autoridade única, autoridade essa escolhida por Jesus mesmo: Pedro. O Bispo de Roma, sucessor direto e ininterrupto de São Pedro, a quem carinhosamente chamamos de Santo Padre, é o vigário de Cristo na Terra. A ele, devemos obediência, respeito e veneração. Como um pai que cuida de seus filhos, sua missão é árdua e exigente: governar a Igreja terrena e conduzi-la ao céu. Assim, devemos sempre acatar filialmente suas palavras, sabendo que “onde está Pedro, ali está a Igreja”.
Por fim, o último aspecto relacionado à unidade é a unidade de culto. Nos quatro cantos do mundo, independentemente de onde um católico esteja, pode ter a certeza de estar amparado: em todos os locais, a mesma missa; em toda parte, os mesmos sacramentos. No mundo todo, possui a segurança de encontrar os meios da graça toda vez que visita uma igreja ou busca um sacerdote.
Quando, portanto, há um cisma e algum determinado grupo se separa da Igreja, ela não deixa de ser una. As características que a tornam o único Corpo de Cristo não cessam e a promessa de que as portas do Inferno não prevalecerão contra ela não é anulada. O que ocorre, tão somente, é que esta comunidade específica escolhe, por uma decisão própria, não mais estar vinculada àquela fundada por Deus. Como fiéis que buscam a Jesus, isso deve nos entristecer: é nosso papel sempre buscar a salvação de todas as almas, inclusive as dos cismáticos, e, como o próprio Catecismo nos lembra, fora da Igreja não há salvação.
O Santo Padre, sinceramente preocupado com o bem de seu rebanho, tentou o diálogo. Propôs reuniões, admoestou e pediu, humildemente, para que não se dividisse. Infelizmente, ficou como um pai que, depois de esgotar todos os meios ao seu alcance, vê o filho insistir no próprio erro. Que nós, agora, redobremos nossas orações pela Igreja no mundo todo. Aos católicos, que permaneçam sempre unidos à barca de Pedro. Aos irmãos separados que se encontram no erro, para que retornem, o quanto antes, à casa da qual jamais deveriam ter saído. Por fim, aos infiéis, para que conheçam a Verdade e obtenham a plenitude da vida.



