A César o que é de César

Quantas vezes já lemos a passagem do Evangelho, na qual os fariseus perguntam a Jesus, tentando lhe arrumar problemas: “É lícito ou não pagar o imposto a César?” Jesus pede que lhe mostrem a moeda do imposto, e pergunta: “De quem é essa imagem e inscrição?” E respondem: “De César”. Jesus arremata: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus, o que é de Deus” (cf. Mt 22,15-22). Múltiplas são as interpretações dadas a essas palavras do Senhor.

A mais frequente é que Deus e dinheiro não se misturam e nada têm a ver um com o outro. Nisso há algo de verdade, porém pode haver também um grave erro, sobretudo quando se tenta, assim, justificar uma religiosidade na qual Deus não se importa com as “coisas materiais”, a política, a economia e a cultura, que podem seguir sua lógica própria, sem nada dever a Deus, mesmo produzindo efeitos perversos.

Essa interpretação é insuficiente e até perigosa, podendo levar a distorcer e apagar a consciência e a se sentir confortável diante das injustiças que a má gestão do dinheiro e da economia pode produzir. Não é isso, contudo, que aprendemos da Palavra de Deus. Os profetas, Jesus e os apóstolos ensinam que a religiosidade sem a coerência de vida é vazia e não agrada a Deus.

 Outra interpretação frequente é que religião e política devem ficar distantes uma da outra. Nisso há algo de verdade, mas essa interpretação também pode ser muito equivocada e levar a um dualismo errôneo entre o espiritual e o material, entre Deus e o mundo. É certo que não se deve instrumentalizar Deus em função de partido e de projetos políticos de conquista, poder e ganância; menos ainda, para justificar projetos autoritários despóticos, de violência e desrespeito pela dignidade humana. É importante lembrar que, em última análise, a política deve ser entendida como um serviço ao bem comum e que também os políticos devem dar contas a Deus dos seus atos. E a política, exercida honesta e corretamente, pode ser uma alta expressão de serviço a Deus e ao próximo. A boa política é necessária e não se opõe necessariamente a Deus.

A expressão “dar a Deus o que é de Deus” com frequência é usada para afirmar que o exercício da religião não deve mexer com dinheiro, nem com bens materiais. Há um lado verdadeiro nessa afirmação: a força da religião não está no dinheiro e nos bens materiais e não se compra a salvação e a vida eterna com ouro e prata. O apego avarento ao dinheiro é uma idolatria e coloca em risco a salvação e a vida eterna. Essa interpretação, no entanto, pode estar muito equivocada, quando pretende que a religião nada deva dizer sobre a economia e a finança, o dinheiro e os bens materiais; ou não deva também fazer uso deles. Considerando que somos seres humanos e não puros espíritos, precisamos de meios e recursos materiais também para o exercício da religiosidade e para manifestar as obras da fé. E o exercício da missão da Igreja necessita de dinheiro e de recursos materiais.

Ao dizer aos fariseus “Dai a Ele o que é de Deus”, Jesus afirma que Deus está acima de César e nossos deveres em relação a Ele não devem ser impedidos por César, nem por nada e ninguém. Isso, todavia, também mexe com nossas atitudes pessoais: quantas vezes, damos a Deus apenas uma sobrinha do nosso tempo, da nossa dedicação, da nossa obediência. E deixamos de dar a Deus a adoração, o louvor, a glória, a ação de graças, a obediência, deixando de cumprir o primeiro mandamento da lei de Deus…

O Papa Francisco, no Angelus do domingo, 18 de outubro, observou que também é preciso “dar a César o que é de César”. E se referia ao cumprimento dos deveres cívicos, ao pagamento dos impostos, ao respeito às autoridades legítimas e à participação ativa na edificação do bem comum. “César”, nesse caso, é a autoridade pública encarregada de promover o bem comum, para cuja realização todos deveriam colaborar sinceramente. Talvez se argumente que os recursos públicos são desviados ou mal aplicados, para justificar a falta do pagamento dos impostos devidos. Isso, porém, não pode ser argumento para deixar de cumprir os deveres cívicos e de contribuir com a promoção da justiça e da solidariedade social. Nesse caso, é preciso participar do esforço coletivo de vigilância dos cidadãos sobre o exercício do poder e da administração pública. O erro de uns não justifica o de outros.

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