Logo do Jornal O São Paulo Logo do Jornal O São Paulo

Comunicações Sociais e Evangelização

No Domingo da Ascensão de Jesus aos Céus, a Igreja celebrou em todo o mundo o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais. O Concílio Vaticano II, em 4 de dezembro de 1963, emitiu o decreto Inter Mirifica (IM), sobre os Meios de Comunicação Social, tratando das “admiráveis invenções da técnica que (…) abriram caminhos novos na comunicação” (IM 1). 

Foi um dos primeiros documentos emitidos pelo Concílio, concluído em dezembro de 1965. Vale a pena reler esse Documento e perceber a atualidade das diretrizes nele contidas. Já na solenidade da Ascensão de 1966, o Papa São Paulo VI lançou o Dia Mundial das Comunicações Sociais para destacar a importância que a Igreja dá à Comunicação e, também, para orientar o seu bom uso a serviço da humanidade e da Igreja. A própria missão da Igreja é, em grande parte, feita de comunicação, por meio do anúncio, do ensino e do testemunho do Evangelho.

Se o Concílio já considerava os Meios de Comunicação como “admiráveis invenções da técnica”, nenhum dos Padres Conciliares, provavelmente, podia imaginar ainda o desenvolvimento dessas admiráveis invenções em tão pouco tempo, sobretudo com o advento da internet, das mídias sociais e, sobretudo, da Inteligência Artificial, que são criações cada vez mais admiráveis da técnica. Porém, o seu uso levanta muitas questões que assustam e muitos estão preocupados com o impacto dos recursos de comunicação desse “admirável mundo novo” sobre o ser humano, suas relações, a moral, a convivência social, a política, a economia, a educação, a saúde. Na Igreja, não é diferente. 

Na sua Mensagem para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais, deste ano, o Papa Leão XIV refletiu sobre a necessidade de “preservar vozes e rostos humanos” na comunicação. A preocupação é com a rápida e progressiva desumanização da comunicação; e isso acontece não simplesmente por conta dos grandes Meios de Comunicação, que produzem uma avalanche inimaginável de informação de toda sorte e de maneira contínua. A desumanização acontece também nas formas “pessoais” de uso dos recursos de comunicação, que estão ao alcance de todos. A comunicação massiva vai sendo marcada pelos automatismos, descaracterizados do humano.

Os algoritmos são automatismos baseados em cálculos. Conceitos e palavras funcionam como se fossem unidades de cálculo. O resto é por conta da máquina e acontece de forma quase incontrolável. Muita “comunicação” não tem mais na sua origem uma pessoa e uma intenção, mas é produzida por mecanismos. Será que chegará o dia em que a inteligência e a decisão humanas serão desnecessárias, bastando máquinas e umas poucas pessoas para controlar a sociedade e o mundo todo? E quando pensamos nos efeitos disso para o mundo do trabalho e para ou-tros aspectos da existência humana?

Por isso, o Papa Leão XIV tem essa preocupação: não descuidemos a dimensão pessoal e humana da comunicação. Somos pessoas e cada rosto e voz são manifestação de um ser pessoal, único e irrepetível. Não renunciemos ao próprio pensamento, nem nos transformemos em autômatos, que apertam com a ponta do dedo automaticamente. As relações humanas não devem ser mascaradas atrás de máscaras, perfis e avatares, ou em bolhas que nos dão a ilusão de estarmos seguros diante do “perigo do outro”, até mesmo para praticar delitos contra ele e contra a convivência humana. “É necessário que a voz e o rosto voltem a expressar a pessoa. É necessário preservar o dom da comunicação como a mais profunda verdade do ser humano, para a qual também se deve orientar toda a inovação tecnológica”, escreveu o Papa.

Neste mesmo Domingo, Dia Mundial das Comunicações Sociais, entraram em vigor as Diretrizes da Arquidiocese de São Paulo sobre o Apostolado nas Mídias Sociais, elaboradas pelo Vicariato Episcopal para a Pastoral da Comunicação, aprovadas e promulgadas pelo Arcebispo. Elas refletem o cuidado necessário no uso das mídias sociais para as diversas dimensões da evangelização e na vida pastoral. O uso das mídias sociais difundiu-se muito no âmbito eclesial, para os mais diversos serviços de evangelização, em que elas podem ser muito importantes. No entanto, se forem usadas mal, sem os devidos critérios e com imprudência, essas “admiráveis invenções da técnica” podem se prestar para muita comunicação nociva e testemunhos negativos.

Que também no âmbito eclesial, na mão e decisão de todos os cristãos, os meios e recursos de comunicação sejam instrumentos e espaços para o bom testemunho do Evangelho, o respeito, a fraternidade, a paz, a dignidade humana e a glória de Deus.

Deixe um comentário