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Corpus Christi durante a pandemia

Ainda que não possamos fazer manifestações vistosas de nossa fé na Eucaristia, temos a ocasião para renovar nossa consciência sobre os diversos significados e implicações da nossa fé no dom precioso da Eucaristia. Que os frutos sejam abundantes!

A celebração de Corpus Christi, neste ano, é realizada em plena crise sanitária por causa da pandemia de COVID-19, e as manifestações, tão queridas ao povo católico, deverão ser muito mais contidas que em tempos normais, para não expor as pessoas ao contágio do novo coronavírus.

Em vez de missas em espaços abertos, seguidas de procissões com diversas manifestações culturais e religiosas para expressar publicamente a fé no grande mistério do Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, as missas deverão ser celebradas apenas com a presença de poucas pessoas, sem ser em espaços públicos. Em vez de procissões, talvez algum grupo pequeno acompanhe o sacerdote que leva o Santíssimo Sacramento pelas ruas e espaços públicos.

Compreendemos que as circunstâncias requerem tais cuidados, mas lamentamos essa limitação à expressão pública de nossa fé. É próprio dessa celebração sair dos espaços dos templos, ir às praças e ruas onde as pessoas circulam, passar pelas casas e estabelecimentos de trabalho e ocupações diárias do povo. E essa manifestação católica pública quer significar que a vida e a fé, as ocupações diárias e a esperança cristã dos bens futuros não precisam andar separadas umas das outras.

Com as celebrações de Corpus Christi, proclamamos que “Ele está no meio de nós”, conforme prometeu: “Eu estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20). Jesus caminhava no meio do povo, anunciando a Boa Notícia do Reino de Deus, ouvindo e falando com as pessoas, dando atenção a todos, especialmente aos doentes, pobres e aflitos. Isso mesmo queremos significar com as manifestações de Corpus Christi: a Igreja está a serviço de Cristo, que continua ainda hoje a exercer essa mesma missão por meio dela.

A Igreja, que celebra a Eucaristia em memória de Jesus Cristo, reunida em torno Dele, não quer se contentar em ser uma instituição que cuida de si, separada do mundo e distante dele, com um discurso feito apenas para dentro dela mesma. Ela também vai ao meio do povo, como testemunha de Cristo, cumprindo sua missão. Nas celebrações de Corpus Christi, ela se faz “Igreja em saída” e se dirige à cidade, ao bairro, às muitas situações em que vivem as pessoas com suas alegrias e esperanças, angústias e sofrimentos, para anunciar que ninguém precisa se sentir esquecido por Deus e pela comunidade dos discípulos de Cristo.

Neste ano, mesmo não podendo fazer isso como sempre, não deixaremos de fazê-lo nos modos possíveis. Cada paróquia e comunidade católica, que crê em Jesus Cristo e na santa Eucaristia, encontrará o modo de celebrar e de fazer aparecer publicamente o significado bonito desta manifestação de fé. Não será o novo coronavírus que nos impedirá de proclamar a todos que “Ele está no meio de nós!” Mais ainda, em tempos de tanta aflição, o povo precisa ouvir e saber que “Deus habita esta cidade e tem amor ao seu povo”. Com a celebração litúrgica, muitos gestos de caridade para com os pobres e doentes poderão ser feitos. A Eucaristia, de fato, é inseparável da caridade. Quem proclama sua fé em Jesus Cristo, que se faz Eucaristia, não deixará de reconhecer a presença Dele no pobre, doente, morador de rua, estrangeiro e migrante, no prisioneiro e em toda pessoa necessitada de atenção e solidariedade. A celebração de Corpus Christi, durante a pandemia, pode nos proporcionar uma compreensão ainda melhor de alguns aspectos do “mistério da fé”, que celebramos.

Esta celebração também nos lembra que a Eucaristia é anúncio profético da humanidade reconciliada, que vive fraternalmente. Os que participam do mesmo “Pão de Deus” são chamados a construir um mundo que supere divisões, ódios, injustiças e lutas fratricidas. E temos muita necessidade disso nas circunstâncias em que vivemos atualmente no Brasil. A comunidade eucarística sinaliza uma convivência social de diálogo desarmado e colaboração, em vez de divisões e antagonismos excludentes.

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