No Domingo de Cristo Rei, 23 de novembro de 2025, o Papa Leão XIV publicou uma bela Carta Apostólica chamada In Unitate Fidei (Na Unidade da Fé), sobre os 1.700 anos do Concílio Ecumênico celebrado em Niceia, na atual Turquia, no ano 325 d.C. A publicação antecede de poucos dias a viagem do Papa à Turquia, para a comemoração dos 1.700 anos do Concílio, lá mesmo onde foi realizado.
Os grandes Concílios Ecumênicos realizados nos séculos IV-V-VI foram determinantes para explicitar as afirmações da fé cristã em coerência com a Palavra de Deus. De fato, já nos tempos apostólicos e subapostólicos surgiram pregações desviadas, que os Apóstolos tiveram que corrigir e afirmar com clareza a fé que estava de acordo com o que eles “viram e ouviram” do próprio Jesus Cristo. Era grande a tentação de misturar o Evangelho com a filosofia grega ou de acomodar a verdade do Evangelho à sabedoria do mundo. Mas o Espírito Santo sempre cuidou da Igreja, para que ela se mantivesse firme e fiel no testemunho dos Apóstolos.
Um grave problema surgiu no início do século IV, quando o Bispo Ário, no Egito, passou a negar que Jesus Cristo é o Filho de Deus, da mesma natureza de Deus Pai. A sua doutrina se espalhou rapidamente pelo Norte da África, pelo Oriente Médio e, também, na Europa. Era um grave risco de perda da fé herdada dos Apóstolos. E tratava-se de uma questão fundamental, pois, perdendo a afirmação de que Jesus Cristo é o Filho de Deus, perde-se a base e a autoridade de toda a pregação da fé cristã. Foi, então, que o Bispo Alexandre, de Alexandria, passou a chamar a atenção para esse desvio grave na fé e na pregação da Igreja. Com vários outros bispos, Alexandre passou a denunciar esse erro na pregação ariana a respeito de Jesus Cristo.
Um concílio ecumênico (universal) foi convocado em 325 na cidade de Niceia, na Ásia Menor, atualmente, na Turquia. Após debates e reflexões intensas, a doutrina de Ário foi declarada falsa (herética) e não representativa da pregação dos Apóstolos e da fé da Igreja. O Concílio de Niceia manteve-se fiel à Escritura e à Tradição de fé que já se tinha na Igreja e segundo a qual os catecúmenos eram batizados. E a profissão da fé cristã foi explicitada no “Ceio em Deus Pai”, conhecido como Símbolo dos Apóstolos.
A doutrina ariana continuou por algum tempo presente em várias comunidades e persiste ainda hoje, sempre que se nega que Jesus Cristo é Filho de Deus desde sempre. Alguns afirmavam que Jesus era um “espírito elevado”, “um grande profeta”, mas negavam que fosse o Filho de Deus, porque isso lhes parecia impossível conforme a ciência humana. Outros problemas correlatos foram surgindo em seguida, afirmando que Jesus se tornou o Filho de Deus somente com a sua ressurreição dentre os mortos; ou que, de Maria, nasceu apenas o homem-Jesus; ou que a sua natureza humana era apenas aparente, e não verdadeira; ou que Jesus não tivesse vontade e sentimentos humanos; ou que o Espírito Santo não é divino, mas uma criatura de Deus, negando que o Espírito Santo fosse igualmente Deus “com o Pai e o Filho”, da mesma natureza do Pai e do Filho.
A todas essas doutrinas, que contradiziam o Evangelho, a Igreja esclareceu nos Concílios Ecumênicos seguintes: 1º de Constantinopla (381 d.C.), Éfeso (431 d.C.), Calcedônia (451 d.C.), mostrando que eram ensinamentos falsos, que não estavam em conformidade com os Evangelhos, com aquilo que os Apóstolos haviam visto, ouvido, testemunhado e transmitido. A fé da Igreja foi, assim, explicitada ainda melhor no símbolo da fé mais comprido, chamado Niceno-Constantinopolitano.
Na comemoração importante do Concílio de Niceia, participarão diversas Igrejas, sobretudo os diversos grupos de Ortodoxos, Anglicanos e vários representantes das Igrejas Protestantes. As comemorações terão forte tônica ecumênica e serão ocasião para a reafirmação da fé comum entre os cristãos das diversas Igrejas, em Jesus Cristo, Filho de Deus, conforme a definição do Concílio de Niceia e dos Concílios Ecumênicos seguintes. Nessa base da fé, os diversos grupos de cristãos e Igrejas cristãs têm sua base comum e se encontram unidas e fraternas, apesar de suas diferenças em outros aspectos. Essa riqueza da fé cristã comum a todos os cristãos é preciosa ser reafirmada.
A viagem do Papa à Turquia não será, propriamente, para uma visita àquele país, mas para retornar, com outros líderes cristãos, aos lugares das origens da fé que juntos professamos. Vale a pena acompanhar o Papa Leão nessa viagem, lendo a bela e valiosa Carta Apostólica que ele acaba de publicar.






