Logo do Jornal O São Paulo Logo do Jornal O São Paulo

Deus de toda consolação

Afinal, o que buscamos por meio da nossa fé e da vida cristã? O que nos promete a nossa fé? Se partirmos das nossas buscas e anseios mais íntimos, as respostas serão a felicidade, a realização plena da existência, a perfeição na virtude, a misericórdia de Deus, a salvação, a vida eterna, a recompensa de Deus. Tudo isso está certo, mas, talvez, falte algo.

Dias atrás, lembramos Santo Agostinho, grande bispo, filósofo, teólogo e doutor da Igreja. No itinerário de sua conversão, ele foi um “coração inquieto”, que buscou ardentemente o que podia satisfazer suas buscas e dar paz à sua alma. Depois de intensas buscas por diversos caminhos, finalmente ele encontrou em Deus o grande motivo de suas buscas, resumindo-as assim: “Tu nos fizeste para ti, Senhor, e nosso coração anda inquieto até que não repouse novamente em Ti”. Só Deus pode satisfazer o nosso coração inquieto.

As múltiplas ações salvadoras de Deus em favor da humanidade têm o objetivo de saciar e consolar o homem, fazendo-o superar a fragilidade, as limitações e as angústias de sua condição. A libertação do cativeiro da Babilônia é anunciada pelo profeta Isaías com palavras de consolação: “Consolai, consolai meu povo, diz o vosso Deus”. E essas palavras significam a libertação da escravidão, o perdão e a misericórdia, a ternura e a proximidade de Deus, que toma conta do seu povo, “como um pastor que apascenta o seu rebanho, reúne com seus braços os cordeiros e os leva ao colo” (cf. Is 40,1-11).

O mesmo conceito aparece diversas vezes na segunda e terceira parte do Livro de Isaías (capítulos 40-55; 56-66): “O Senhor consolou o seu povo” (49,13; 52,9); “sou eu aquele que vos consola” (51,13); “como mãe que consola um filho, assim eu vos consolarei” (66,13). A profecia sobre a ação do Messias é toda marcada pela consolação: será uma boa notícia para todos aqueles que sofrem e vivem oprimidos e angustiados (cf. Is 61,1-11). No início de sua vida pública, na sinagoga de Nazaré, Jesus lê essa passagem de Isaías e diz: “Hoje cumpre-se esta palavra da Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4,21; cf. 4,16-22). No olhar de São Lucas, a missão messiânica de Jesus é consolação para a humanidade.

No Evangelho de São Mateus, a pregação de Jesus começa com o sermão da montanha (cap. 5 a 8). Logo no início, estão as bem-aventuranças, que também são um anúncio consolador (cf. Mt 5,1-12). Jesus proclama bem-aventurados, felizes aqueles que sofrem de tantas formas. Eles podem ter a certeza de que serão confortados, saciados, resgatados, consolados. O anúncio do reino de Deus, por Jesus, é boa notícia para todos os que buscam, sofrem, estão angustiados e desejam resgate, sentido, luz, caminho, verdade, vida…  Ao longo da vida pública e da pregação de Jesus, isso vai sendo mostrado e tem o seu ponto mais alto na Ressurreição e glorificação de Jesus: quando tudo parecia perdido e sem sentido, a Ressurreição de Jesus confirma todo esse anúncio da consolação de Deus para os homens por meio de seu Filho enviado ao mundo para consolar os seus filhos e filhas.

São Paulo, na 2ª Carta aos Coríntios, bendiz a Deus, “Pai das misericórdias e Deus de toda consolação, que nos consola em todas as nossas aflições” (2Cor 1,3-4). O apóstolo tem seus motivos para agradecer a consolação de Deus, que ele experimentou na comunidade de Corinto, onde também enfrentou momentos difíceis. Ele convida a participar sem medo dos sofrimentos de Cristo, pois haverá também grande consolação. E a consolação experimentada e vivida deve ser motivo para consolar também aqueles que vivem todo tipo de angústia e aflição (cf. 1Cor 1,3-7).

Em tempos de muita dor e aflição, de solidão e depressão, é bom lembrar que a palavra de Deus é mensagem de consolação e promessa de plenitude da vida e das nossas buscas. E dessa consolação, haurimos forças e coragem para enfrentar a vida e seguir cumprindo nossa missão, como São Paulo, Santo Agostinho e tantos outros.

Deixe um comentário