Ele falava com autoridade

Logo nos primeiros capítulos do Evangelho segundo São Marcos, Jesus é descrito como um pregador vigoroso, que arrebatava as multidões com suas palavras. “Todos ficavam admira- dos com seu ensinamento, pois ensinava com autoridade e não como os mestres da Lei” (Mc 1,22). Essa autoridade aparecia na sabedoria de suas palavras, ao mesmo tempo simples, claras e profundas. Com essa mesma palavra, Ele curava todo tipo de doentes, que lhe eram levados em número sempre maior.

Jesus expulsava demônios, que lhe obedeciam, e mostrava que o reinado de Deus havia chegado e o do Maligno estava sendo vencido. Dava ordens ao vento e ao mar, e esses acalmavam-se. Ao ver isso, “todos ficaram muito admirados e perguntavam uns aos outros: “O que é isto? Um ensinamento novo feito com autoridade: ele manda nos espíritos maus e estes lhe obedecem!” (Mc 1,27).

O povo ainda não sabia de onde lhe vinha essa autoridade e esse poder, mas percebia que “a mão de Deus” estava sobre Jesus. Os próprios apóstolos, ao verem a tempestade e o mar acalmados após a ordem de Jesus, ficaram com muito medo diante Dele e se perguntaram: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” (Mc 4,41). Ele falava e agia com a sabedoria e o poder de Deus, pois era o Filho de Deus, presente humanamente no meio do povo. A autoridade de Jesus nas suas palavras vinha da percepção da veracidade de seus ensinamentos, percebidos logo como verdadeiros e bons.

O jeito de falar de Jesus, que encantava e entusiasmava as pessoas, nos leva a refletir sobre o uso que nós fazemos da palavra para falar das coisas de Deus, da fé e da moral ao nosso povo. Será que elas estão animadas pela mesma força da verdade e da bondade? Os ministros ordenados da Igreja são encarregados de falar ao povo com a autoridade de Jesus Cristo. A palavra é Dele; é Dele o povo; o mandato de pregar foi dado por ele, mediante a unção do Espírito Santo, para edificar o povo de Deus e conduzi-lo pelos caminhos do Evangelho, da fé e da moral da Igreja.

Ao entregar o livro dos Santos Evangelhos àquele que recebe o Diaconato, primeiro grau do sacramento da Ordem, o bispo ordenante lhe diz: “Recebe o Evangelho de Cristo, do qual foste constituído mensageiro; trans- forma em fé viva o que leres, ensina aquilo que creres e procura realizar o que ensinares”. E isso também permanece válido para o presbítero e o bispo. Os ministros ordenados são os primeiros destinatários da Palavra de Deus, a cujo serviço estão.

Lamentavelmente, nem sempre nos lembramos disso e somos tentados a falar aos outros, de maneira fria e distante, como se a palavra pregada não fosse destinada a nós em primeiro lugar. Mais triste ainda é ver o momento da pregação se transformar numa ocasião de autopromoção narcisista, em que o próprio pregador se transforma no centro da pregação. E quando a pregação se torna ocasião para apontar o dedo contra desafetos ou descarregar as reclamações e insatisfações pessoais sobre o povo? O que dizer, quando a pregação se torna ocasião para excentricidades e banalizações do momento sagrado e até para usar expressões de teor moral discutível e ofensivo à sensibilidade dos fiéis?

Estes esperam, com razão, uma palavra boa, que os instrua, edifique e conforte. Também nós, pregadores, devemos falar “com autoridade”, não com uma autoridade própria ou despótica, mas com aquela recebida mediante a unção do Espírito Santo e pela imposição das mãos na sagrada ordenação sacerdotal. Essa autoridade nos vem da nossa fidelidade à mesma palavra anunciada, testemunhada mediante uma vida coerente. Vem ainda da Igreja, em nome da qual falamos. Não falamos em nome próprio e, portanto, isso requer de nós, pregadores, uma fidelidade e sintonia clara com a própria Igreja e seu ensinamento. Na nossa pregação deve transparecer a autoridade de Jesus Cristo e da Igreja, que nos constituiu seus mensageiros.

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